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sábado, 24 de abril de 2010
O Monstro
As crianças temem os monstros ocultos sob a cama ou escondidos nos armários, aguardando, nas sombras, o momento propício à agarrá-las arrastando-as para as tenebrosas Trevas...os jovens corações enchiam-se de terror...mas à medida que crescem o monstro transfigura-se em em algo tão mais sutil e terrível do que aquele que vivia nas sombras....este espreita em cada canto, não apenas no oculto, mas nas ensolaradas manhãs na escola, na praia, no clube...ele agora não espreita pelas frestas dos armários, mas vem envolvido em papel seda ou espalhado sobre uma superfície, donde o incauto O aspira e, assim, o Monstro conseguiu, do terror de outrora, provocar o terror de agora! Distorcendo a personalidade, revolvendo o antes fecundo solo d'alma, com suas hediondas garras impiedosamente destrói cada traço que nos torna humanos...aprisiona a alma...destrói o corpo...aniquila quem se põe em seu caminho...pois o desejo desse Monstro virótico, é multiplicar-se buscando novos "hospedeiros".
O medo, a morte, a loucura e a destruição, séquito desse maldito ser que habita o seio das famílias...da Sociedade....aniquilando tudo à sua volta...destruindo aqueles a quem rouba a alma, esse vil demônio, a Droga!
Adriana La Terza
O Lago
Vinha, Cedryc, galopando pela floresta, quando ouviu um choro.
Parou, aguçou o ouvido...misturado ao farfalhar das árvores, havia um pungente choro. Curioso, dirigiu-se ao centro da floresta, a despeito dos avisos para evitá-la, não acreditava em supertições...avançou mais, até chegar à um lago, oculto no coração da floresta; à beira desse, uma linda e desolada mulher, tocava a água tentando, em vão, alcançar algo...Aproximou-se e constatou o quanto era linda! Ao vê-lo, suplicou que a ajudasse a pegar seu cordão que caíra ao banhar-se. Seduzido pela beleza dela, ele prontamente inclinou-se para buscar a jóia, mas ao ver o reflexo de ambos n'água, surpreendeu-se...a linda mulher ao seu lado, estranhamente, refletia disforme, ressecada, olhos vazios, presas...olhou à que estava ao seu lado, e permanecia bela como antes, não aquele reflexo horrendo! Olhou para a água e notou que aquela "coisa" refletida, movia os lábios como se fosse sugar ou aspirar e sentiu-se tonto, enfraquecido...começou a sufocar e secar. À medida que murchava, o reflexo rejuvenescia, igualando-se à bela sentada à margem.
Cedryc secou até tornar-se um monte de pó e cascalho no chão ao lado da jovem que lhe pedira socorro e que, agora, semeava o lago com as cinzas de seu benfeitor.
Adriana La Terza
Vinhedo do Desepero
Desorientado, Armand, caminhava por uma extensa trilha de terra batida, permeada por densa e bela vegetação.
Aflito procurava algo que lhe escapava à memória, mas não ao coração, este, apertado no peito, sufocava-o na ânsia e expectativa de encontrar o que desconhecia, que era-lhe indispensável à existência. Vagou, aturdido, ao que lhe pareceram horas, num espetacular campo verdejante, recoberto de flores e arbustos frutíferos...um fleche: lindo e angelical rosto feminino, sorrindo lhe oferecia uma daquelas amoras pendentes no arbusto. Pálido, coração galopante, tinha certeza que o que procurava era ela, mas...onde? A visão dela cortara-lhe a mente! Fagulhas incandescentes mostravam-lhe uma ventura inenarrável, porém, estranhamente esquecida! Aquela terrível dor de cabeça incessante o enlouquecia,levou a mão à cabeça e sentiu-a úmida, apavorou-se ao ver sangue! Teria caído e, ao bater a cabeça esquecera-se de tudo? Mesmo de alguém que lhe parecia marcada à fogo em seu coração? Precisava encontrar a resposta...olhou ao redor e parecia familiar, caminhou instintivamente e ao longe, divisou um lindo casarão! Um relâmpago de esperança :reconhecia a casa! Correu para lá, abrindo bruscamente a porta de madeira maciça e procurou, vasculhou sem nada perceber, até notar um enorme quadro em cima da lareira,...caminhou, até ele e viu-se ao lado da bela jovem que enchia sua memória devastada, reconheceu sua adorada esposa! As lembranças voltavam enquanto lágrimas transbordavam de seus olhos; desesperou-se e avançou para a escada que dava acesso ao andar superior, subiu-a, saltando degraus....viu a porta do quarto principal, empurrou- a , e viu, chocado, nos alvos e macios lençóis de seda, o corpo inerte de sua adorada Sophie! Nem mesmo a mortalha lhe roubava a beleza...atirou-se sobre ela e tentou beijar-lhe a face marmórea e fria....inutilmente... não conseguia tocá-la, embora tentasse. Angustiado, olhava ensandecido, ao redor procurando uma explicação, quando percebeu uma perna, estirada ao lado oposto à cama, dirigiu-se até lá, e...viu-se, caído morto, uma arma na mão direita; arregalou os olhos e tocou novamente a cabeça que sangrava...como era possível! Ao ver uma carta aberta perto de sua mão esquerda, inclinou-se e leu " Meu amor, por favor volte rápido! Sinto-me cada vez mais fraca, a tuberculose avançou, tenho medo de não conseguir despedir-me de você. Com eterno amor. Sophie." Fechou os chorosos olhos, apertando-os como se isso fosse afastar a dantesca verdade....o terrível pesadelo! Lembrou-se de receber a carta enquanto negociava os vinhos de seus vinhedos, planejava levar Sophie às montanhas, esperava que novos ares restituíssem a saúde da amada, ao ler a carta retornara ao lar, imediatamente, mas chegara tarde...enlouquecido pela dor e desespero, findou a própria vida...ajoelhado, agora, ao lado de seu cadáver, ergueu as mãos tremulas, enterrando-as nos enbaraçados cabelos e gritou: Não!
Adriana La Terza
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Ressurgir
Andando pelos negros, profundos e inexplorados vales de minha sombria alma, encontrei um fantasma....distorcido, opaco, sentava-se numa rocha, junto a um lago sangrento e incandescente....chorava! Aproximei-me, as borbulhas incandescentes do lago sanguíneo, queimavam-me e manchavam meus negros crepes, a tormenta sempre constante, repentinamente aquietou...virei-me e de repente a esmaecida silueta surgiu a minha frente, perguntando-me:
- que fizes-te de mim? maculou-me, deformou-me, transfigurou meu mundo num abismo infernal....causticante, povoado de misérias, dor, desespero!....desespere-te agora que teu reinado finda.
O espectro segurou meu rosto, tampando meus olhos, e nessa escuridão induzida pude ver minha outrora vida perdida....sonhos, esperanças...risos....e ao ver...toda infernal realidade que criara, era sugada para minha mente, o espectro largou-me e ao abrir os olhos ensanguentados e embaciados, vi que todo seu aspecto, havia mudado...fime, bela, forte, parecia-se comigo, a de outrora, e aterrada, vi....o mundo que construí, nas ruínas... sumira, tudo resplandecia, verdejava....havia apenas um pequeno e profundo buraco no chão....e eu disse para mim, agora distorcida e esmaecida:
- guardei este lugar....para enterrar-te de vez! Empurrou-me, lançando terra e grama, sepultando-me e meu mundo, naquela brecha onde permaneceria por toda eternidade. Abri meus olhos, levantei da cama, a qual aprisionara-me livremente, tomei um longo e reconfortante banho e fui para o jardim, algumas plantas murchavam....acerquei-me delas e comecei a replantar, regar, sorrir...viver!
Adriana La Terza
O Jantar
Andava apressado, não poderia perder o metrô, ou teria problemas com Elena; ela andava alienada ultimamente, com idéias estranhas...talvez fosse o recente parto de Julie, tão linda, mas a deixava inquieta e perturbada.
Cheguei na hora do jantar e Elena disse:
- Lave-se, o jantar está quase pronto.
O cheiro estava delicioso e antes de banhar-me, fui brincar com meu velho amigo Max, um belga à muito da família, não o encontrei....deve ter fugido, de novo, para namorar...logo voltará!....bem, Julie àquela hora dormia e resolvi dar-lhe o beijo de boa noite, quando fosse dormir também.
Elena estava mais estranha que "o normal", serviu-me ensopado de carne com legumes que devorei faminto; ela olhava fixamente a pia e, para puxar conversa, perguntei do Max. Ela disse:
- Aqui. ....
- Aqui?? onde?? ( não o vira ao chegar ).
Só então reparou na pia que a mulher insistentemente olhava, levantou-se horrorizado, sangue manchava toda superfície da pia, caiu ajoelhado, vomitando e, aos berros, perguntou:
- O que fez?!
Pensamento terrível ocorreu-lhe, correu desesperado para o quarto da pequena Julie que...dormia como anjo que era. Trancou a porta do quarto da filha e ligou para John, irmão de Elena....voltou para a cozinha, Elena, de pé, mantinha as mãos na pia, naquele rubro mar sanguineo....aproximou-se mais e ...oh! horror!!!...na pia a cabeça de Max, lingua estirada para fora, olhos vazios....olhou, aterrado, do cão para a mulher, ela agora com um cutelo nas mãos sangrentas, ia na direção do marido petrificado dizendo:
- Preciso terminar o jantar!
Floresta Proibida
Caroline mudou-se para uma casa beirando uma densa floresta. Ao descarregar suas coisas, um globo caiu e rolou para a floresta, ia buscá-lo, quando repentinamente é agarrada por um velho; gritou e seus pais correram para socorrê-la; o velho então disse:
- É proibido entrar na floresta maldita, quem ousa, não volta!
Caroline riu, mas o velho continuou:
- À 200 anos, uma mulher foi abandonada pelo noivo, que fugiu com sua melhor amiga, desesperada, fugiu para a floresta e enforcou-se no carvalho retorcido; dizem que na hora da morte fez um pacto, com o Abandonado, levaria todos que pudesse entregando suas almas e sangue, pela oportunidade de achar os dois culpados de sua miséria, e desde então, quem entra não volta.
Caroline debochou do velho supeticioso, mas ele, ao partir, ainda gritou:
- Preveni você!
À noite, Caroline só pensava em explorar a floresta e provar que o velho era doido. Ao perceber que todos dormiam, partiu. Vagou, feliz concluindo que o velho era doido e ela estava certa, menina da cidade se assustar com folclore?! Até que farfalhar de pé nas folhagens a sobressaltou! Escondeu-se num tronco oco e então viu...uma mulher de vestido rubro, ou que parecia banhado em algo sanguinolento que deixava odor nauseabundo....ela estava atenta a algo, repentinamente salto e com garras infernais, agarrou um gamo, cravou suas presas enormes e potiagudas, estraçalando o pescoço do animal que contorcia-se no solo,empapando-o de sangue. Enluquecida de terror, Coroline quiz fugir, mas pisou num galho seco, ao elevar os olhos, viu a criatura olhando diretamente para ela, olhos rutilantes, boca escorrendo sangue enquanto sorria famélica, sugeitando o gamo nas garras. Caroline correu o mais que pode, mas ao virar-se para abrir a porta deu de cara com "ela" que faminta olhava-a,como um especto infernal, enquanto sangue escorria de sua boca ao colo; disse a Caroline, congelada de pavor:
- Devorarei tua alma hoje!
Agarrou Caroline e arrastou-a pelos cabelos até a Árvore dos Malditos no centro da floreta, sempre sorrindo com dentes bestiais, acariciou os ruivos cabelos de Caroline e a beijou nos lábios, sugando sua vida e entregano sua alma ao Abandonado, ao poucos Caroline secava como uma múmia, antes do fim a criatura trevosa, arrancou o coração e o devorou ainda pulsante, e agora Caroline não passava de um amontoado de gravetos, como muitos outros, aos pés da retorcida Árvore dos Malditos.
Nunca mais se teve notícias dela, apenas lacas e marcas de unhas arranhando do piso à floresta.
Adriana La Terza
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