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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Clonagem Humana : Ética ou Antiética?




Os heróis punidos


Pode-se dizer que boa parte da mitologia antiga, grega, romana ou oriental, enfatiza os perigos que incorre o ser humano ao tentar ultrapassar os limites fixados com leis de ferro da Natureza, amparada pelos deuses. Basta lembrar a lenda de Ícaro, o jovem filho de Decalião que tentou voar e terminou tragicamente, ou ainda a tão conhecida história do titã Prometeu que, desconsolado com a ignorância e miséria dos homens, roubou o fogo sagrado dos céus para ajudá-los a sair do embrutecimento em que se encontravam.

Os exemplos são inúmeros e até hoje são sempre lembrados quando a ciência avança sobre áreas que consideramos melindrosas ou sagradas. No entanto, os homens curiosos e cientistas corajosos e capazes, mesmo arriscando suas vidas, jamais negaram-se a ir em frente. Tiveram que enfrentar a incompreensão das autoridades, o fanatismo e a superstição do povo comum, a revolta do clero e por vezes o calabouço, o exílio, a pobreza forçada ou a fogueira por terem defendido concepções que hoje consideramos absolutamente aceitáveis e naturais mas que no tempo em que foram proferidas foram consideradas heréticas ou demoníacas.

Obviamente que uma das mais delicadas é a que trata da criação de um novo ser: quando o Homem, ao arrepio de Deus, tenta imitá-lo e dedica-se a criar, com seus próprios recursos, um ser humano. Existem, en quase todas as culturas, uma infinidade de histórias que registram essas tentativas fracassadas. Além do Prometeu dos gregos, uma dessas narrativas lendárias mais antigas diz respeito ao Golem, uma Criatura que teria sido forjada pelos judeus de um gueto da Polônia no século XII. Após o esforço de terem pronunciado 221 palavras cabalísticas dos modos os mais diversos possíveis eles encontraram a fórmula mágica para fazer do barro um ser humano. A Criatura, que não dizia uma só palavra, foi marcada na testa com a palavra hebraica Emert (Verdade), para distingui-lo dos demais, mas depois de terem perdido o controle sobre o Golem tiveram que destruí-lo, transformando-o de novo em pó.
O Mito de Prometeu
"Os benefícios que fiz aos mortais atraíram-me este rigor. Apoderei-me do fogo, em sua fonte primitiva: ocultei-o num cabo de uma bengala, e ele tornou-se para o homem a fonte de todas as artes e um recurso fecundo." - Ésquilo - Prometheus Desmontes, circa de 463 a.C.

Mas não só em lendas judaicas medievais ocorreu a idéia do Homem imitar Deus. A literatura também o fez. Em 1774, o escritor alemão F. W. Goethe publicou um pequeno poema (Prometheus)com apenas oito estrofes, no qual lançou o grito de guerra do Prometeu redivivo. O titã descrito por Goethe não aceita mais venerar Zeus, dizendo ser a divindade invejosa e inservível por que em mais nada ajuda o Homem. Ele sim, liberto da vassalagem divina, iria doravante criar outros homens que, em tempo, viriam ser iguais a ele. Esses novos homens não teriam mais nenhum compromisso com a devoção aos deuses, seriam totalmente livres. Essa pequena estrofe serviu de inspiração para que depois surgisse o culto ao Gênio, ao homem extraordinário que, sozinho, constrói o seu destino sem temer a mais ninguém e a mais nada. A partir de então o titã tornou-se um dos heróis mitológicos favoritos do Movimento Romântico e, não só dele, até o materialista Karl Marx confessou que seu herói favorito - o seu homem-modelo - também era Prometeu.

Prometheus *

(Poema de F.W Goethe, de 1774)

"Encobre o teu Céu ò Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto

Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!

(...)

Eu honrar a ti? Porque?
Livras-te a carga do abatido?
Enxugaste por acaso a lágrima do triste?

(...)

Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo
por alguns dos meus sonhos se haverem
frustrado?

Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:

homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que forem parias,
não se renderão a ti como eu fiz"

(*) Prometeu foi um titã da mitologia grega que roubou o fogo (a sabedoria e a ciência) dos céus. Foi punidos por Zeus com o castigo de ficar encadeado a uma rocha no Cáucaso, onde uma águia diariamente lhe bicava o fígado. Sua sina foi teatralizada pela primeira vez por Ésquilo (525-456 a.C.), no século V a.C., com o titulo de Prometeus desmotes

Prometeu tornou-se, desde os tempos de Ésquilo (a tragédia foi representada no século V a.C., em Atenas), o símbolo da eterna insatisfação humana com seu destino. O Titã que não se conforma nunca com os acasos e a inconstâncias da Natureza e que se revolta contra a tirania dos deuses. Prometeu é o homem que tenta construir o seu próprio destino sem aceitar interferência divina. Enquanto o herói da lenda grega teve de suportar o suplício, o moderno Prometeu tem um como tarefa modelar à sua feição e imagem, não só o Mundo como a si mesmo. Façanha essa que agora é possível porque surgiu um novo tipo fogo, um fogo (o conhecimento) não mais roubado dos Céus mas sim desenvolvido por ele mesmo e formado pela Ciência e a Tecnologia.



O Monstro Frankenstein




A adesão a esse novo Prometeu Renascido, que emergiu do Movimento Iluminista e da Revolução Industrial do século XVIII, filho da Razão e da Técnica, não foi uníssona. Muito pelo contrário. E a oposição a ele não partiu só da Igreja Católica e dos pastores da Igreja Reformada. Os poetas, escritores e intelectuais do Movimento Romântico que então começava a predominar no cenário cultural europeu, também manifestaram seus temores frente ao novo titã. Em 1818, Mary Shelley, esposa do poeta Percy Shelley, escreveu uma novela gótica que assustou todo o mundo: Frankenstein.


Na novela, um talentoso médico e cientista de nome Frankenstein tenta dar vida a uma série de membros e órgãos humanos retirados de cadáveres distintos. Depois de várias tentativas laboratoriais, utilizando-se largamente de choques e correntes elétricas, a Criatura desperta (naquela época difundiram-se as experiências feitas desde 1800 com a bateria elétrica de Volta e a eletricidade animal de Galvani). Em pouco tempo, ao escapar do fantástico laboratório do dr.Frankenstein, o Monstro de forma humana vai deixando um rastro de mortes e de pavores em sua fuga. Termina por ser incinerado por uma massa de camponeses assustada e furiosa. Portanto, o Prometeu de Mary Shelley (o dr.Frankenstein) ao tentar rivalizar-se com Deus na tentativa de também dar a vida a alguém, fez por gerar no seu laboratório uma anomalia, uma perigosíssima ameaça à comunidade.
O medo ao novo
De certo modo, muitas das fobias antigas voltaram à luz com a notícia da clonagem de uma ovelha adulta feita na Escócia pelo Instituto Roslin, em 1997. Governos, igrejas, seitas religiosas de todas as crenças, manifestaram profundo receio perante a possibilidade de se clonar, em breve, um ser humano. As sanções e ameaças feitas aos cientistas, caso eles tentem isso, variam de simples negação de verbas federais até medidas mais rigorosas como pena de prisão. Isto tudo afinal é muito natural. Toda inovação revolucionária provoca um choque ético na humanidade. Mas com o tempo, as barreiras uma a uma vão caindo, e aquilo que foi encarado certa vez como uma blasfêmia, ou um crime contra Deus, passa a ser visto com toda a naturalidade. Quem se negaria hoje a vacinar-se contra febre amarela. No entanto, a sua obrigatoriedade introduzida no Rio de Janeiro pelo cientista e sanitarista Dr. Oswaldo Cruz, provocou a Revolta da Vacina de 1904.

Feita essa ressalva é certo que Prometeu, quer queiram ou não, irá cumprir a sua promessa feita nos tempos do Romantismo de conseguir fazer nascer criaturas à sua imagem, pois o homem moderno está condenado a ser "o senhor e dono da Natureza".

Não se pode entender essa extraordinária Revolução da Biogenética que hora assistimos sem recuarmos no tempo. É preciso fixar-se o momento em que a mentalidade do homem ocidental começa a mudar. Desde o Renascimento italiano, a partir do século XV, o Humanismo procurou fazer com que gradativamente as atenções dos estudiosos se voltassem não para as coisas do Céu, como se fazia na Idade Média, mas para o que cercava o Homem: a Terra, a Natureza, a Vida. Decorrente dessa nova postura, cultivou-se um pensamento cada vez mais inclinado para a ação e não mais para a contemplação. Devotou-se um amor cada vez maior pela existência e pelas ciência naturais. Ocorre, a partir de então, um gradativo desprestígio da vida monacal, enclausurada nos Mosteiros, dedicada à ascese e às orações. O atrativo para o homem do Renascimento passou a ser o agir, a conquista dos mares, as grandes aventuras, a atração pelo descortinar dos oceanos e culturas desconhecidas. Abandonam o exemplo dos Santos como um ideal a ser imitado e os substituem por Marco Polo, o homem que desbravara Cipango e conhecera os Canatos da Ásia.
Nas artes, celebra-se a beleza física e o nu ou semi-despido que voltam a ser apreciados como nos tempos greco-romanos. Reintroduziu-se a perspectiva e a proporção nas artes visuais e utiliza-se, como o fez Leonardo da Vinci (1452-1519), os conhecimentos da ciência física - especialmente a ótica - nas composições pictóricas e nas esculturas. Todos eles estudam anatomia, apesar das restrições impostas pela Igreja Católica. Copérnico, Kepler e Galileu, por sua vez, devastam os céus; Colombo, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, abrem os caminhos das imensidões salgadas; o Dr. Harvey decifra o mistério da circulação do sangue, enquanto bem antes deles todos Gutemberg provocava com seu invento, a imprensa, a maior revolução cultural desde o surgimento do alfabeto. Na geração seguinte a de Galileu, que escrutinara os céus com seu telescópio, Anton Van Leuwenhoek, de Delft, girava a sua poderosa lente para baixo, para um gota d'água, para ir encontrar a bactéria, descoberta por ele em 1683. Desde então, que saltos deu a microbiologia, graças aquele Colombo holandês armado com um microscópio.

O processo de Desmagização do Mundo tinha o seu início. Ninguém mais acreditava que os chamados Mistérios de Deus (as coisas e fenômenos que os homens não podiam explicar ou entender) durariam muito. Autoconfiante e cada vez mais auto-suficiente, a Humanidade partiu para conquistas cada vez mais ousadas e mais espetaculares. De certa forma atendia-se o grande chamamento feito na época do Renascimento, pelo que se consagrou como o Manifesto do Humanismo, que enfatiza a possibilidade do homem vir a construir o seu próprio destino com suas próprias mãos







Síntese das Correntes e Teorias



Cartesianismo

R. Descartes: "Tratado do Homem" (Le Traité de L'Homme), 1662
Tese do Homem-Máquina, preserva no entanto a separação do corpo (autômato) e do espirito (alma)




Antropologia Materialista

La Mattrie - "O Homem-Máquina" (L'Homme-Machine), 1747
Integração do corpo e do espírito, homem vive das sensações
Ética: vive-se para o gozo e o prazer




Utilitarismo

J. Bentham "Introdução aos Princípios Morais e Legislação", (Introduction to the Principles of Morals and Legislation), 1798
Ética: O "Bom" é o útil e "mau" é o inútil
Objetivo: "a maior felicidade para o maior número possível"



Positivismo

Comte: "Discurso Sobre o Espírito Positivo" (Discours sur L'Esprit Positif), 1844
A teoria dos 3 estágios (O teológico, o metafísico e o científico). Anúncio da Era Científica ou Positiva



Darwinismo
C. Darwin: "A Origem das Espécies" (On the Origin of Species), 1859
Explicação naturalista da origem humana por meio da seleção natural e da sobrevivência do mais apto




O Homem Neuronal

J. Monod " Acaso e Necessidade" (Le Hasard et la Necessité), 1970
F. Jacob "A Lógica Vivente" (La Logique Vivante), 1970
J-P. Chargeux "O Homem Neuronal" (L'Homme Neuronal), 1983
A vida como resultado de mecanismos biofísicos
Homem é uma máquina neuronal




A bioética


O termo bioética é recente. Surgiu em 1970 num artigo escrito por Van Rensselar Potter, com o título "The Science of Survival" e, no ano seguinte, em 1971, no livro "Bioethics: Bridge to The Future" onde pregou a necessidade de se estabelecer uma ponte entre o saber científico e o saber humanístico. Ela tem por objetivo associar a biologia à ética, por meio de uma prática interdisciplinar, onde esperam os médicos, homens de ciência, advogados, juristas, religiosos, atuem em comum para estabelecer um conjunto de normas aceitável para todos.
Qual a razão da emergência da bioética?
Ocorre que nos últimos anos a medicina, a biologia e a engenharia genética alcançaram extraordinários avanços: multiplicaram-se os transplantes, experiências bem sucedidas com animais se multiplicaram, inseminações artificiais se tornaram corriqueiras, bem como nascimentos humanos fora do corpo humano (fertilização in vitro). Igualmente pela crescente legislação, adotada por vários, países, que permite o aborto e, em menor escala, a eutanásia. Ela tem procurado orientar não só os cientistas dedicados a experiências genéticas como também a opinião pública e os legisladores em geral. Aos cientistas alerta-os para os limites da sua investigação, à opinião pública para esclarecê-la e aos legisladores para que façam as leis seguindo princípios éticos aceitáveis.
Diferentes momentos da Bioética
a) Bioética geral: ocupa-se das funções éticas, é o discurso sobre os valores e os princípios originários da ética médica e sobre fontes documentais da bioética
b) Bioética especial: analisa os grandes problemas enfrentando-os sempre sob o perfil geral, tanto no terreno médico quanto no biológico (engenharia genética, aborto, eutanásia, experiência clínica, etc...). São as grandes temáticas da bioética.
c) Bioética clínica (o de decisão): trata da praxis médica e do caso clínico, quais são os valore em jogo e quais os caminhos corretos de conduta.







Grupo de pesquisadores rejeita
alertas, menospreza riscos e
afirma que iniciará em novembro
uma experiência com 200 mulheres
para produzir o primeiro clone humano
Daniel Hessel Teich e Ana Santa Cruz
Começou a contagem regressiva para a mais ousada, arriscada e polêmica experiência biológica de todos os tempos. Anuncia-se agora a produção por clonagem de um ser humano em laboratório. Na semana passada, o médico italiano Severino Antinori e seus associados afirmaram durante uma reunião na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em Washington, que a primeira clonagem humana tem início em novembro. Duas centenas de voluntárias já contratadas terão implantados no útero embriões produzidos artificialmente por um método que só há poucos anos vem sendo tentado em animais, com resultados estatisticamente desencorajadores. Mesmo assim, o italiano vai tentar produzir a cópia idêntica de uma pessoa a partir de uma célula comum retirada da pele. Depois do anúncio, a França e a Alemanha pediram à ONU que inicie imediatamente um diálogo mundial para banir a clonagem de seres humanos. A Igreja também atacou, tachando as experiências de nazistas. Segundo o Vaticano, o médico italiano tenta reviver desumanas experiências de homogeneização da raça feitas pelos alemães durante a II Guerra Mundial.
"O Vaticano me comparou a Hitler, mas me considero um Galileu Galilei", reagiu Antinori. Por ironia, a clínica de Antinori, em Roma, é vizinha da Basílica de São Pedro. Em janeiro passado, quando o italiano Antinori e o americano Panayiotis Zavos, dono de uma clínica no Estado americano de Kentucky, anunciaram a intenção de clonar um ser humano, eles despertaram pouco mais que curiosidade da opinião pública e desprezo da comunidade científica. Desde a terça-feira passada, no entanto, quando deram a conhecer os detalhes práticos já avançados do extraordinário experimento, Antinori e Zavos produziram uma sensação diferente. Na comunidade científica e até entre governos, o anúncio da clonagem humana provocou inquietação.
"Gostemos ou não das credenciais de Antinori e Zavos, o fato é que eles queimaram a largada da corrida para a produção do primeiro clone humano. Vai ser difícil agora segurar o segundo pelotão de cientistas", disse James Watson, biólogo que ganhou o Prêmio Nobel, junto com Francis Crick, pela descoberta da forma da molécula da vida, o DNA, feito que deu impulso à pesquisa genética. Embora um tanto excêntrico, Watson ainda sabe fazer-se ouvir pelos colegas. Terminada a exposição, a dupla ítalo-americana foi bombardeada com questões técnicas dos cientistas. Eles contornaram os problemas mais polêmicos, como a certeza de que, para cada três bebês nascidos aparentemente sadios, a clonagem vai gerar quase duas centenas de fetos monstruosos destinados a morrer no ventre das voluntárias hospedeiras, cujas vidas também estarão em perigo. Diante de uma audiência incrédula, Zavos disse que conseguiu produzir uma bateria de exames capaz de atestar a saúde genética de um embrião clonado antes de implantá-lo no útero de uma mulher voluntária. "É um trabalho importantíssimo para a humanidade, e nós o faremos", disse Antinori. "Há centenas de pacientes dispostos a aceitar o risco em nome de um filho que não podem ter de nenhuma outra forma", argumentou Zavos.
A decisão da dupla chegou a um ponto de não-retorno. Para driblar as improváveis barreiras legais que possam enfrentar para fazer a experiência na Itália, os doutores da clonagem receberam o convite de meia dúzia de governos em diversas partes do mundo dispostos a financiar a aventura. "Em último caso, faremos num transatlântico em alto-mar", disse Antinori no tom de bravata típico que nada ajuda em sua busca de credibilidade.
Os detalhes científicos do processo foram ofuscados na semana passada pela sensação bem mais forte de que, funcionando ou não, a clonagem de um ser humano parece inevitável. "Não há como negar que muitos cientistas renomados estavam esperando alguém tomar a decisão de fazer a experiência. Uma vez obtidos os primeiros resultados e passada a gritaria inicial, a clonagem se tornará uma rotina", disse o biólogo Lee Silver. "Caso Antinori consiga clonar um ser humano, vai haver uma pressão insuportável de grupos dispostos a repetir a experiência", afirma o médico paulista Roger Abdelmassih, especialista em fertilização artificial. Entre os cientistas que foram assistir ao anúncio dos médicos da clonagem em Washington, as opiniões se dividiam de modo ainda mais contrastante. Alguns opositores consideram improvável que uma força externa possa impedir a dupla de fazer a experiência. O melhor, então, seria torcer para que dê tudo errado e que eles produzam monstros genéticos. Dessa forma, acreditam os opositores do experimento, a opinião pública ficaria assustada e isso adiaria a clonagem por décadas. E se der certo? A imagem de um bebê clonado perfeito, cor-de-rosa, choramingando no colo da mãe mudaria o mundo científico para sempre. Tanto quanto ocorreu no nascimento há 23 anos do primeiro bebê de proveta, a inglesinha Louise Brown. Quando Louise veio ao mundo, as técnicas rudimentares de concepção in vitro davam certo em apenas 5% dos casos. Hoje beiram os 50%.
Com base nas experiências semelhantes com vacas, cabritos e macacos, a clonagem humana tem 1,5% de chance de produzir um bebê vivo. E sadio? Bem, quanto a isso as certezas são menores. O processo de clonagem é quase uma loteria. Zavos e Antinori terão de obter cerca de 2.000 óvulos para tentar engravidar as 200 mulheres que se apresentaram como voluntárias para gestá-los. Desse grupo, acredita-se que apenas trinta não perderão os bebês logo nos primeiros meses de gestação. As demais vão abortar naturalmente ou precisarão ter a gravidez interrompida para evitar que fetos defeituosos coloquem em risco suas vidas. Das trinta que conseguirem manter a gravidez, apenas oito concluirão os nove meses de gestação e darão à luz seus bebês. Ao nascer, cinco dos bebês poderão apresentar problemas tão graves de saúde que deverão morrer ou ser submetidos à eutanásia logo depois do parto. Apenas três serão sadios, a ponto de passarem no berçário por bebês concebidos normalmente. "É inevitável ter problemas agora. Tanto quanto é inevitável que esses problemas tendam a diminuir com o crescente domínio da técnica", diz Antinori. Na semana passada, dava-se como certo que o presidente americano George W. Bush se manteria fiel às promessas de campanha e vetaria verbas federais para as pesquisas com embriões humanos. Quando Bush anunciou sua decisão, surpreendente, de favorecer certos tipos de pesquisa com células de embriões, os analistas atribuíram a mudança de opinião do presidente à pressão dos cientistas americanos. "É imaturidade acreditar que os Estados Unidos vão deixar outros países liderarem a pesquisa genética com embriões humanos", disse Harry Griffin, diretor do Instituto Roslin, onde em 1996 foi clonada pioneiramente a ovelha Dolly, que nasceu sem pai e é uma cópia perfeita de um animal adulto. Numa primeira abordagem do tema, há duas semanas, o Congresso americano votou contra a clonagem humana em território americano. A decisão de Bush, porém, abre caminho para que a técnica seja estudada e aprimorada sem que se produza efetivamente um bebê. Bush anunciou que vai financiar pesquisas em que cientistas utilizem embriões que foram feitos pelos métodos atuais de fertilização artificial e não puderam ou não precisaram ser implantados nas mães. As células desses embriões serão usadas em pesquisas que tentam desenvolver métodos de tratamento mais eficazes para doenças genéticas como mal de Parkinson e Alzheimer, ou metabólicas, como o diabetes juvenil. Uma outra linha de pesquisa experimenta usar essas células embrionárias para tratar lesões vertebrais provocadas por acidentes.
Na tentativa de clonar o primeiro ser humano, os médicos Antinori e Zavos usarão um método praticamente idêntico ao que criou a ovelha Dolly. Os pesquisadores vão começar a trabalhar com os óvulos cedidos por doadoras. A primeira etapa consiste em arrancar seu núcleo genético natural – produzindo-se assim o equivalente a um ovo sem gema, apenas com a clara e a casca. Em seguida, os cientistas vão coletar células de adultos que querem se clonar. O núcleo genético das células humanas carrega todas as instruções necessárias para produzir a cópia fiel de um ser humano. No laboratório, uma pequena descarga elétrica faz o núcleo da célula da pessoa a ser clonada se fundir com a célula oca. Quando o procedimento dá certo, imediatamente a célula construída artificialmente começa a se reproduzir e gera um pré-embrião, chamado blastocisto. Esse pré-embrião é, então, transferido para o útero de uma das voluntárias onde vai passar pelo processo de gestação. Teoricamente, os bebês que Antinori e Davos conseguirem produzir serão gêmeos univitelinos dos doadores do núcleo celular.
Teoricamente, reafirme-se. O processo é ainda tão incipiente que há quase certeza de que mesmo os bebês nascidos vivos podem trazer ao mundo falhas genéticas de nascença como as que, aos poucos, vão se descobrindo em Dolly. A ovelha clonada pelo Instituto Roslin nasceu há cinco anos, mas suas células são equivalentes às de uma ovelha mais velha – um animal com 12 anos, exatamente a idade da ovelha cujo DNA foi utilizado na experiência. Por essa razão, não está descartada a possibilidade de que os clones humanos sejam bebês precocemente envelhecidos, que sofram de doenças degenerativas, como a catarata ou o reumatismo e mesmo certos tipos de câncer, ainda na primeira infância. Alguns bezerros e ovelhas clonados nasceram aleijadamente grandes, com peso 60% superior ao de um filhote normal. Como o espaço no útero é menor que o necessário, podem nascer mancos ou com pernas deformadas. Às vezes é a cabeça que cresce demais, e os animais morrem rapidamente. Mesmo os filhotes que nascem perfeitos podem apresentar problemas mais tarde. É comum bezerros clonados morrerem de paralisia renal menos de 48 horas depois de nascerem. A eutanásia é o único caminho para aliviar o sofrimento desses filhotes.
A ciência claramente não está pronta para testar a técnica da clonagem em seres humanos. "Há 25 anos eu achava que as limitações para conseguir clonar uma pessoa eram mera questão de método e tecnologia. Hoje tenho certeza de que há uma séria limitação biológica", diz o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. Um dos principais argumentos dos pesquisadores que decidiram levar adiante a clonagem é o desenvolvimento de exames capazes de prever anormalidades em um embrião no estágio inicial de formação. Isso contornaria os riscos de se produzirem bebês monstro. Pouca gente acredita na existência desses testes. "A única maneira de chegar à perfeição na clonagem é pela prática, pela repetição, por tentativa e erro. Nas experiências com animais isso é perfeitamente aceitável. Mas com seres humanos é antiético agora e será pelas próximas décadas", disse Alan Colman, diretor da PPL Therapeutics, empresa líder na criação de animais geneticamente modificados para produzir remédios.
A questão ética não vai ceder tão cedo. Perto da clonagem, as discussões morais sobre aborto ou eutanásia tornam-se problemas menores. Do ponto de vista da Igreja, o debate tem muito pouco a ver com as dificuldades científicas do processo de clonagem. Ele é uma variante de um dogma que remonta a Santo Agostinho, no século V, segundo o qual a vida humana começa no momento da concepção. Em tese, os religiosos estariam contra o processo de clonagem por ele produzir embriões condenados a morrer, mas não seriam necessariamente contrários ao processo em si, desde que haja garantias de sucesso na operação. Isso em tese. Na prática, a Igreja Católica repele, com mais veemência que o judaísmo e as denominações protestantes, todas as formas de manipulação genética em seres humanos. "Clonagem de qualquer tipo é antiética e o embrião que é descartado, mesmo que seja antes de completar duas semanas, é vítima de assassinato", diz o bispo dom João Bosco de Faria, designado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para participar da redação do Código de Ética de Manipulação Genética que os religiosos esperam ver adotado no Brasil.
O mais provável é que a ética religiosa não conte muito para os cientistas da estirpe de Antinori e Zavos. Nem para a legião de outros grupos que começam a admitir estar trabalhando na produção de um clone humano. Um desses grupos é um certo Clonaid, clínica de pesquisa com sede nas Bahamas e que tem ligação com uma seita exótica, os raelianos. O Clonaid é formado por cerca de 20 000 pessoas que acreditam na clonagem como o objetivo transcendente da raça humana. Dirigido pela pesquisadora francesa Brigitte Boisselier, o Clonaid está cobrando 200.000 dólares de potenciais candidatos à clonagem. Vista como uma aventureira pelo próprio Antinori, Brigitte sugeriu durante a reunião em Washington que seu grupo já se está preparando para a primeira operação completa de clonagem. Seu grupo quer clonar um bebê de 10 meses que morreu durante uma cirurgia malsucedida no ano passado. Algumas células retiradas na operação e congeladas antes da morte darão aos cientistas o material genético necessário para o experimento. Entre as mulheres arregimentadas para a tarefa de receber um clone no útero está a própria filha de Brigitte, de 22 anos.
Candidatos a fazer cópias de si mesmos não faltam. O americano Randolfe Wicker, de 63 anos, presidente do Human Cloning Foundation, é o mais ardente deles. "A maioria das pessoas quer ter filhos. A essa altura da vida prefiro ter um irmão gêmeo", disse ele a VEJA. "A clonagem não é a chave para a eternidade e sei que meu clone será uma pessoa diferente de mim. Se eu estiver vivo para criá-lo, vou tê-lo como filho. Seu nome será Randolfe Wicker Junior", esclarece o ativista. Motivações como a de Wicker mostram que a clonagem começa a ser encarada como um procedimento útil. "Antes, as pessoas falavam erradamente que a clonagem poderia produzir cópias de Hitler ou de Saddam Hussein", diz Brigitte. "Agora se fala em clonar um filho morto ainda bebê ou fazer a cópia de um filho com leucemia para que o irmão gêmeo resultante possa ser doador da medula que vai salvar-lhe a vida." Seja qual for a razão, depois do anúncio da semana passada ficou claro que a corrida rumo ao impensável, a cópia artificial de um ser humano, está muito mais adiantada do que se imaginava.





quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Aristóteles




Aristóteles  (Estagira, Calcídia, 384 A.C - 322 A.C ) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande, considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos e criador do pensamento lógico.
Aristóteles figura entre os mais influentes filósofos gregos, ao lado de Sócrates e Platão, que transformaram a filosofia pré-socrática, construindo um dos principais fundamentos da filosofia ocidental. Aristóteles prestou contribuições fundantes em diversas áreas do conhecimento humano, destacando-se: ética, política, física,metafísica, lógica, psicologia, poesia, retórica,zoologia, biologia, história natural.
É considerado por muitos o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental, a exemplo das palavras que ele criou e que passaram para quase todas as línguas modernas (atualidade, axioma, categoria,energia, essência, potencial, potência,tópico, virtualidade e muitas outras). Sua influência também pode ser percebida na obra "A Divina Comédia" de Dante Alighieri já que toda a astronomia dantesca se funda em Aristóteles e seus comentadores.
Foi chamado por Augusto Comte de "o príncipe eterno dos verdadeiros filósofos", por Platão de "o leitor" (pela avidez com que lia e por se ter cercado dos livros dos poetas, filósofos e homens da ciência contemporâneos e anteriores) e, pelos pensadores árabes, de o "preceptor da inteligência humana". Por ter estudado uma variada gama de assuntos, e por ter sido também um discípulo que em muito sentidos ultrapassou o mestre, Platão, é conhecido também como O Filósofo. Aristóteles também foi chamado de o estagirita, pela terra natal, Estagira.



Vida


Filho de nicômaco amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, pai de Felipe II. É provável que o interesse de Aristóteles por biologia e filosofia decorra da atividade médica exercida pelo pai e pelo tio, e que remontava há dez gerações.
Com cerca de 16 ou 17 anos partiu para Atenas, maior centro intelectual e artístico da Grécia Como muitos outros jovens da época, foi para lá prosseguir os estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates, que visava preparar o aluno para a vida política, e Platão e sua Academia, com preferência à ciência (episteme) como fundamento da realidade. Apesar do aviso de que, quem não conhecesse Geometria ali não deveria entrar, Aristóteles decidiu-se pela Academia platônica e nela permaneceu 20 anos, até 347 a.C,, ano que morreu Platão.
Com a morte do grande mestre e com a escolha do sobrinho de Platão, Epeusipo, para a chefia da Academia, Aristóteles partiu para Assos com alguns ex-alunos. Dois fatos parecem se relacionar com esse episódio: Espeusipo representava uma tendência que desagradava imensamente Aristóteles, isto é, a matematização da filosofia; e Aristóteles ter-se sentido preterido (ou rejeitado), já que se julgava o mais apto para assumir a direção da Academia.
Em Assos, Aristóteles fundou um pequeno círculo filosófico com a ajuda de Hérmias, tirano local e eventual ouvinte de Platão. Lá ficou por três anos e casou-se com Pítias, sobrinha de Hérmias. Assassinado Hérmias, Aristóteles partiu para Mitilene, na ilha de Lesbos, onde realizou a maior parte das famosas investigações biológicas. No ano de 343a.C. chamado por Filipe II, tornou-se preceptor de Alexandre, função que exerceu até 336 a.C, quando Alexandre subiu ao trono.
Neste mesmo ano, de volta a Atenas, fundou o «Lykeion», origem da palavra Liceu cujos alunos ficaram conhecidos como paripatétipos ( os que passeiam), nome decorrente do hábito de Aristóteles de ensinar ao ar livre, muitas vezes sob as árvores que cercavam o Liceu. Ao contrário da Academia de Platão, o Liceu privilegiava as ciências naturais. Alexandre mesmo enviava ao mestre exemplares da fauna e flora das regiões conquistadas. O trabalho cobria os campos do conhecimento clássico de então, filosofia, metafísica, lógica, ética, política, retórica, poesia , biologia zoologia, medicina e estabeleceu as bases de tais disciplinas quanto a metodologia científica.
Aristóteles dirigiu a escola até 324 a.C, pouco depois da morte de Alexandre. Os sentimentos antimacedônicos~ dos atenienses voltaram-se contra ele que, sentindo-se ameaçado, deixou Atenas afirmando não permitir que a cidade cometesse um segundo crime contra a filosofia (alusão ao julgamento de Sócrates). Deixou a escola aos cuidados do principal discípulo, Teofrasto ( 327 a.C - 288 a.C ) e retirou-se para Cálcis, na Eurébia. Nessa época, Aristóteles já era casado com Hérpiles, uma vez que Pítias havia falecido pouco tempo depois do assassinato de Hérmias, seu protetor. Com Hérpiles, teve uma filha e o filho Nicômaco morreu a 322 a. C







O pensamento aristotélico



A tradição representa um elemento vital para a compreensão da filosofia aristotélica. Em certo sentido, Aristóteles via o próprio pensamento como o ponto culminante do processo desencadeado por Tales de Mileto. A filosofia pretendia não apenas rever como também corrigir as falhas e imperfeições das filosofias anteriores. Ao mesmo tempo, trilhou novos caminhos para fundamentar as críticas, revisões e novas proposições.

Aluno de Platão, Aristóteles discorda de uma parte fundamental da filosofia. Platão concebia dois mundos existentes: aquele que é apreendido por nossos sentidos, o mundo concreto -, em constante mutação; e outro mundo - abstrato -, o das ideias, acessível somente pelo intelecto, imutável e independente do tempo e do espaço material. Aristóteles, ao contrário, defende a existência de um único mundo: este em que vivemos. O que está além de nossa experiência sensível não pode ser nada para nós.



Lógica


Para Aristóteles, a Lógica é um instrumento, uma introdução para as ciências e para o conhecimento e baseia-se no silogismo, o raciocínio formalmente estruturado que supõe certas premissas colocadas previamente para que haja uma conclusão necessária. O silogismo é dedutivo, parte do universal para o particular; a indução, ao contrário, parte do particular para o universal. Dessa forma, se forem verdadeiras as premissas, a conclusão, logicamente, também será.




Física

A concepção aristotélica de Física parte do movimento, elucidando-o nas análises dos conceitos de crescimento, alteração e mudança. A teoria do ato e potência, com implicações metafísicas, é o fundamento do sistema. Ato e potência relacionam-se com o movimento enquanto que a matéria e forma com a ausência de movimento.

Para Aristóteles, os objetos caíam para se localizarem corretamente de acordo com a natureza: o éter, acima de tudo; logo abaixo, o fogo; depois o ar; depois a água e, por último, a terra.



Psicologia

A Psicologia é a teoria da alma e baseia-se nos conceitos de alma (psykhé) e intelecto (noûs). A alma é a forma primordial de um corpo que possui vida em potência, sendo a essência do corpo. O intelecto, por sua vez, não se restringe a uma relação específica com o corpo; sua atividade vai além dele.

O organismo, uma vez desenvolvido, recebe a forma que lhe possibilitará perfeição maior, fazendo passar suas potências a ato. Essa forma é alma. Ela faz com que vegetem, cresçam e se reproduzam os animais e plantas e também faz com que os animais sintam.

No homem, a alma, além de suas características vegetativas e sensitivas, há também a característica da inteligência, que é capaz de apreender as essências de modo independente da condição orgânica.

Ele acreditava que a mulher era um ser incompleto, um meio homem. Seria passiva, ao passo que o homem seria ativo.



Biologia


A biologia é a ciência da vida e situa-se no âmbito da física (como a própria psicologia), pois está centrada na relação entre ato e potência. Aristóteles foi o verdadeiro fundador da zoologia - levando-se em conta o sentido etimológico da palavra. A ele se deve a primeira divisão do reino animal.

Aristóteles é o pai da teoria da abiogênese, que durou até séculos mais recentes, segundo a qual um ser nascia de um germe da vida, sem que um outro ser precisasse gerá-lo (exceto os humanos): um exemplo é o das aves que vivem à beira das lagoas, cujo germe da vida estaria nas plantas próximas.

Ainda no campo da biologia, Aristóteles foi quem iniciou os estudos científicos documentados sobre peixes sendo o precursor da ictiologia (a ciência que estuda os peixes), catalogou mais de cem espécies de peixes marinhos e descreveu seu comportamento. É considerado como elemento histórico da evolução da piscicultura e da aquariofilia.



Metafísica


O termo "Metafísica" não é aristotélico; o que hoje chamamos de metafísica era chamado por Aristóteles de filosofia primeira. Esta é a ciência que se ocupa com realidades que estão além das realidades físicas que possuem fácil e imediata apreensão sensorial.

O conceito de metafísica em Aristóteles é extremamente complexo e não há uma definição única. O filósofo deu quatro definições para metafísica:

a ciência que indaga causas e princípios;
a ciência que indaga o ser enquanto ser;
a ciência que investiga a substância;
a ciência que investiga a substância supra-sensível.
Os conceitos de ato e potência, matéria e forma, substância e acidente possuem especial importância na metafísica aristotélica.



As quatro causas


Para Aristóteles, existem quatro causas implicadas na existência de algo:

A causa material (aquilo do qual é feita alguma coisa, a argila, por exemplo);
A causa formal (a coisa em si, como um vaso de argila);
A causa eficiente (aquilo que dá origem ao processo em que a coisa surge, como as mãos de quem trabalha a argila);
A causa final (aquilo para o qual a coisa é feita, cite-se portar arranjos para enfeitar um ambiente).
A teoria aristotélica sobre as causas estende-se sobre toda a Natureza, que é como um artista que age no interior das coisas.




Essência e acidente


Aristóteles distingue, também, a essência e os acidentes em alguma coisa.

A essência é algo sem o qual aquilo não pode ser o que é; é o que dá identidade a um ser, e sem a qual aquele ser não pode ser reconhecido como sendo ele mesmo (por exemplo: um livro sem nenhum tipo de história ou informações estruturadas, no caso de um livro técnico, não pode ser considerado um livro, pois o fato de ter uma história ou informações é o que permite-o ser identificado como "livro" e não como "caderno" ou meramente "maço de papel").

O acidente é algo que pode ser inerente ou não ao ser, mas que, mesmo assim, não descaracteriza-se o ser por sua falta (o tamanho de uma flor, por exemplo, é um acidente, pois uma flor grande não deixará de ser flor por ser grande; a sua cor, também, pois, por mais que uma flor tenha que ter, necessariamente, alguma cor, ainda assim tal característica não faz de uma flor o que ela é).



Potência, ato e movimento


Todas as coisas são em potência e ato. Uma coisa em potência é uma coisa que tende a ser outra, como uma semente (uma árvore em potência). Uma coisa em ato é algo que já está realizado, como uma árvore (uma semente em ato). É interessante notar que todas as coisas, mesmo em ato, também são em potência (pois uma árvore - uma semente em ato - também é uma folha de papel ou uma mesa em potência). A única coisa totalmente em ato é o Ato Puro, que Aristóteles identifica com o Bem. Esse Ato não é nada em potência, nem é a realização de potência alguma. Ele é sempre igual a si mesmo, e não é um antecedente de coisa alguma. Desse conceito Tomás de Aquino derivou sua noção de Deus em que Deus seria "Ato Puro".

Um ser em potência só pode tornar-se um ser em ato mediante algum movimento. O movimento vai sempre da potência ao ato, da privação à posse. É por isso que o movimento pode ser definido como ato de um ser em potência enquanto está em potência.

O ato é portanto, a realização da potência, e essa realização pode ocorrer através da ação (gerada pela potência ativa) e perfeição (gerada pela potência passiva).



Ética


No sistema aristotélico, a ética é a ciência das condutas, menos exata na medida em que se ocupa com assuntos passíveis de modificação. Ela não se ocupa com aquilo que no homem é essencial e imutável, mas daquilo que pode ser obtido por ações repetidas, disposições adquiridas ou de hábitos que constituem as virtudes e os vícios. Seu objetivo último é garantir ou possibilitar a conquista da felicidade.

Partindo das disposições naturais do homem (disposições particulares a cada um e que constituem o caráter), a moral mostra como essas disposições devem ser modificadas para que se ajustem à razão. Estas disposições costumam estar afastadas do meio-termo, estado que Aristóteles considera o ideal. Assim, algumas pessoas são muito tímidas, outras muito audaciosas. A virtude é o meio-termo e o vício se dá ou na falta ou no excesso. Por exemplo: coragem é uma virtude e seus contrários são a temeridade (excesso de coragem) e a covardia (ausência de coragem).

As virtudes se realizam sempre no âmbito humano e não têm mais sentido quando as relações humanas desaparecem, como, por exemplo, em relação a Deus. Totalmente diferente é a virtude especulativa ou intelectual, que pertence apenas a alguns (geralmente os filósofos) que, fora da vida moral, buscam o conhecimento pelo conhecimento. É assim que a contemplação aproxima o homem de Deus.




Política


Alexandre e Aristóteles.Na filosofia aristotélica a política é um desdobramento natural da ética. Ambas, na verdade, compõem a unidade do que Aristóteles chamava de filosofia prática.

Se a ética está preocupada com a felicidade individual do homem, a política se preocupa com a felicidade coletiva da pólis. Desse modo, é tarefa da política investigar e descobrir quais são as formas de governo e as instituições capazes de assegurar a felicidade coletiva. Trata-se, portanto, de investigar a constituição do estado.

Acredita-se que as reflexões aristotélicas sobre a política originam-se da época em que ele era preceptor de Alexandre, o Grande.




Direito


Para Aristóteles, assim como a política, o direito também é um desdobramento da ética. O direito para Aristóteles é uma ciência dialética, por ser fruto de teses ou hipóteses, não necessariamente verdadeiras, validadas principalmente pela aprovação da maioria.




Retórica


Aristóteles considerava importante o conhecimento da retórica, já que ela se constituiu em uma técnica (por habilitar a estruturação e exposição de argumentos) e por relacionar-se com a vida pública. O fundamento da retórica é o entimema (silogismo truncado, incompleto), um silogismo no qual se subentende uma premissa ou uma conclusão. O discurso retórico opera em três campos ou gêneros: gênero deliberativo, gênero judicial e gênero epidítico (ostentoso, demonstrativo).




Poética


A poética é imitação (mimesis) e abrange a poesia épica, a lírica e a dramática: (tragédia e comédia). A imitação visa a recriação e a recriação visa aquilo que pode ser. Desse modo, a poética tem por fim o possível. O homem apresenta-se de diferentes modos em cada gênero poético: a poesia épica apresenta o homem como maior do que realmente é, idealizando-o; a tragédia apresenta o homem exaltando suas virtudes e a comédia apresenta o homem ressaltando seus vícios ou defeito.




Astronomia


O cosmos aristotélico é apresentado como uma esfera gigantesca, porém finita, à qual se prendiam as estrelas, e dentro da qual se verificava uma rigorosa subordinação de outras esferas, que pertenciam aos planetas então conhecidos e que giravam em torno da Terra, que se manteria imóvel no centro do sistema (sistema geocêntrico).

Os corpos celestes não seriam formados por nenhum dos chamados quatro elementos transformáveis (terra, água, ar, fogo), mas por um elemento não transformável designado "quinta essência". Os movimentos circulares dos objetos celestes seriam, além de naturais, eternos.




Obra


A filosofia aristotélica é um sistema, ou seja, a relação e conexão entre as várias áreas pensadas pelo filósofo. Seus escritos versam sobre praticamente todos os ramos do conhecimento de sua época (menos as matemáticas).

Embora sua produção tenha sido excepcional, apenas uma parcela foi conservada. Seus escritos dividiam-se em duas espécies: as 'exotéricas' e as 'acroamáticas'. As exotéricas eram destinadas ao público em geral e, por isso, eram obras de caráter introdutório e geralmente compostas na forma de diálogo. As acroamáticas, eram destinadas apenas aos discípulos do Liceu e compostas na forma de tratados. Praticamente tudo que se conservou de Aristóteles faz parte das obras acroamáticas. Da exotéricas, restaram apenas fragmentos.

O conjunto das obras de Aristóteles é conhecido entre os especialistas como corpus aristotelicum.

O Organon, que é a reunião dos escritos lógicos, abre o corpus e é assim composto:

Categorias:

análise dos elementos do discurso;
Sobre a interpretação: análise do juízo e das proposições;
Analíticos (Primeiros e Segundos): análise do raciocínio formal através do silogismo e da demonstração científica;
Tópicos: análise da argumentação em geral;
Elencos sofísticos: tido como apêndice dos Tópicos, analisa os argumentos capciosos.
Em seguida, aparecem os estudos sobre a Natureza e o mundo físico. Temos:

Física;

Sobre o céu;
Sobre a geração e a corrupção;
Meteorológicos.
Segue-se a Parva naturalia, conjunto de investigações sobre temas relacionados.

Da alma;

Da sensação e o sensível;
Da memória e reminiscência;
Do sono e a vigília;
Dos sonhos;
Da adivinhação pelo sonho;
Da longevidade e brevidade da vida;
Da Juventude e Senilidade;
Da Respiração;
História dos Animais;
Das Partes dos Animais;
Do Movimento dos Animais;
Da Geração dos Animais;
Da Origem dos Animais.
Após os tratados que versam sobre o mundo físico, temos a obra dedicada à filosofia primeira, isto é, a Metafísica. Não se deve necessariamente entender que 'metafísica' signifique uma investigação sobre um plano de realidade fora do mundo físico. Esta é uma interpretação neoplatônica.

À filosofia primeira, seguem-se as obras de filosofia prática, que versam sobre Ética e Política. Estas reflexões têm lugar em quatro textos:

Ética a Nicômaco;

Ética a Eudemo (atualmente considerada como uma primeira versão da Ética a Nicômaco);
Grande Moral ou Magna Moralia (resumo das concepções éticas de Aristóteles);
Política (a política, para Aristóteles, é o desdobramento natural da ética)
Existem, finalmente, mais duas obras:

Retórica;

Poética (desta obra conservam-se apenas os tratados sobre a tragédia e a poesia épica).
O corpus aristotelicum ainda inclui outros escritos sobre temas semelhantes, mas hoje sabe-se que são textos apócrifos. Aristóteles havia registrado as constituições de todas as cidades gregas, mas julgava-se que esses escritos haviam se perdido. No século XIX, contudo, foi descoberta a Constituição de Atenas, única remanescente.



Perda dos seus escritos


De acordo com a distinção que se origina com o próprio Aristóteles, seus escritos são divididas em dois grupos: os "exotéricos" e os esotéricos".A maioria dos estudiosos tem entendido isso como uma distinção entre as obras de Aristóteles destinadas ao público (exotéricas), e os trabalhos mais técnicos (esotéricos) destinados ao público mais restrito de estudantes de Aristóteles e outros filósofos que estavam familiarizados com o jargão e as questões típicas das escolas platônica e aristotélica. Outra suposição comum é que nenhuma das obras exotéricas sobreviveu - todos os escritos de Aristóteles existentes são do tipo esotérico. O conhecimento atual sobre o que exatamente os escritos exotéricos eram é escasso e duvidoso, apesar de muitos deles poderem ter sido em forma de diálogo. (Fragmentos de alguns dos diálogos de Aristóteles sobreviveram.) Talvez seja a esses que Cícero refere-se quando ele caracteriza o estilo de escrita de Aristóteles como "um rio de ouro"; é difícil para muitos leitores modernos aceitar que alguém poderia tão seriamente admirar o estilo daquelas obras atualmente disponíveis para nós. No entanto, alguns estudiosos modernos têm advertido que não podemos saber ao certo se o elogio de Cícero foi dirigido especificamente para as obras exotéricas; alguns estudiosos modernos têm realmente admirado o estilo de escrita concisa encontrado nas obras existentes de Aristóteles.




Linha do tempo


384 a.C. – Aristóteles nasce em Estagira, Macedônia situada hoje no nordeste da Grécia. O pai era um médico reconhecido - ou seja, um cientista. Se chamava Nicômaco e era amigo do rei da Macedônia Amintas II, Pai de Felipe.

367 a.C. – Aos 17 anos Aristóteles se muda para Atenas com intuito de estudar na Academia de Platão, onde foi um brilhante estudante. Platão estava com 61 anos de idade.

356 a.C. – Nasce Alexandre, filho de Felipe (rei da Macedônia).

347 a.C. – Morre Platão e Espeusipus se torna o novo diretor da Academia. Aristóteles deixa Atenas e se muda com outros colegas da Academia para Assos (hoje situada no litoral da Turquia). Neste período Aristóteles se casa com Pithias, filha de Herméias, rei de Assos e que também frequentou a Academia de Platão. Aristóteles tem uma filha que assim como a mãe também é chamada Pithias.

344 a.C. – Herméias é deposto. Aristóteles se muda para Mytilene nas ilhas de Lesbos. Se associa com Teofrastos, um nativo desta cidade e também formado pela academia de Platão e faz importantes estudos em biologia.

343 a.C. – Felipe, rei da Macedônia, convida Aristóteles para morar em sua residência e ser o tutor de seu filho Alexandre (mais tarde, O Grande) que tem 13 anos de idade.

335 a.C. – Felipe morre. Alexandre sobe ao trono. Aristóteles volta para Atenas e funda a sua própria escola, o Liceu. Neste mesmo ano, de volta a Atenas, fundou o Lykeion, (termo que deu origem a palavra Liceu) cujos alunos ficaram conhecidos como peripatéticos (os que passeiam), nome decorrente do hábito de Aristóteles de ensinar ao ar livre, muitas vezes sob as árvores que cercavam o Liceu. Ao contrário da Academia de Platão, o Liceu privilegiava as ciências naturais. Alexandre mesmo enviava ao mestre exemplares da fauna e flora das regiões conquistadas. O trabalho cobria os campos do conhecimento clássico de então: filosofia, metafísica, lógica, ética, política, retórica, poesia, biologia, zoologia, medicina e não só estabeleceu as bases de tais disciplinas quanto a metodologia científica. Durante este período Pythias morre e Aristóteles se casa com Herpyllis que também era nativa de Estagira. Com ela Aristóteles tem um filho chamado Nicômaco.

323 a.C. – Após estender suas conquistas ao Egito, à Síria, Pérsia e Índia, Alexandre o Grande Morre (na Índia); por causa do sentimento antimacedônico, Aristóteles se vê obrigado a sair de Atenas pela última vez.

322 a.C. – Aristóteles morre em Cálsis, na Eubéia.

Auguste Comte







Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (Montpellier, 19 de janeiro de 1798 - Paris, 5 de setembro de 1857) foi um filósofo frânces, fundador da Sociologia e do Positivismo.
Nascido em Montpellier, no Sul da França, Auguste Comte desde cedo revelou uma grande capacidade intelectual e uma memória prodigiosa. Seu interesse pelas ciências naturais era conjugado pelas questões históricas e sociais e, com 16 anos, em 1814, ingressou na Escola Politécnica de Paris. No período de 1817-1824 foi secretário do conde Henri de Saint-Simon (1760-1825), expoente do socialismo utópico; todavia, como Saint-Simon apropriava-se dos escritos de seus discípulos para si e como dava ênfase apenas à economia na interpretação dos problemas sociais, Comte rompeu com ele, passando a desenvolver autonomamente suas reflexões. São dessa época algumas fórmulas fundamentais: "Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto" (1819) e "Todas as concepções humanas passam por três estádios sucessivos - teológico, metafísico e positivo -, com uma velocidade proporcional à velocidade dos fenômenos correspondentes" (1822) (a famosa "lei dos três estados").
Comte trabalhava intensamente na criação de uma filosofia positiva quando, em virtude de problemas conjugais sofreu um colapso nervoso, em 1826. Recuperado, mergulhou na redação do Curso de filosofia positiva (posteriormente, em 1848, renomeado para Sistema de filosofia positiva), que lhe tomou doze anos. Em 1842, por criticar a corporação universitária francesa, perdeu o emprego de examinador de admissão à Escola Politécnica e começou a ser ajudado por admiradores, como o pensador inglês John Stuart Mill (1806-1873). No mesmo ano, Comte separou-se de Caroline Massin, após 17 anos de casamento. Em 1845, apaixonou-se por Clotilde de Vaux, que morreria no ano seguinte por tuberculose. Entre 1851 e 1854 Comte redigiu o Sistema de política positiva, em que extraiu algumas das principais consequências de sua concepção de mundo não-teológica e não-metafisica, propondo uma interpretação pura e plenamente humana para a sociedade e sugerindo soluções para os problemas sociais; no volume final dessa obra, apresentou as instituições principais de sua Religião da Humanidade Em 1856  publicou o livro Síntese subjetiva, primeiro e único volume de uma série de quatro dedicados a tratar de questões específicas das sociedades humanas: lógica, indústria, pedagogia, psicologia, mas faleceu, possivelmente de câncer, em 5 de setembro de 1857 em Paris Sua última casa, na rua Monsieur-le-Prince, 10, foi posteriormente adquirido por positivistas e transformado no Museu Casa de Augusto Comte.
Todavia, é importante notar que uma grande confusão terminológica ocorre com a obra de Comte e seu "Positivismo": ele não tem nenhuma ou pouca relação com o chamado Positivismo Jurídico, ou Juspositivismo, de Hans Kelsen; com a "Psicologia positivista", ou "behaviorismo" (ou "comportamentalismo"), de Watson e Skinner; com o Neopositivismo, do Círculo de Viena, de Otto Neurath, Carnap e seus diversos associados, nem com tantos outros "positivismos" de outras áreas do conhecimento.




Teorias

 A filosofia positiva

A filosofia positiva de Comte nega que a explicação dos fenômenos naturais, assim como sociais, provenha de um só princípio. A visão positiva dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos (Deus ou natureza) e pesquisa suas leis, vistas como relações abstratas e constantes entre fenômenos observáveis.
Adotando os critérios histórico e sistemático, outras ciências abstratas antes da Sociologia, segundo Comte, atingiram a positividade: a Matemática, a Astronomia, a física, a Química e a Biologia. Assim como nessas ciências, em sua nova ciência inicialmente chamada de física social e posteriormente Sociologia, Comte usaria a observação, a experimentação, da comparação e a classificação como métodos - resumidas na filiação histórica - para a compreensão (isto é, para conhecimento) da realidade social. Comte afirmou que os fenômenos sociais podem e devem ser percebidos como os outros fenômenos da natureza, ou seja, como obedecendo a leis gerais; entretanto, sempre insistiu e argumentou que isso não equivale a reduzir os fenômenos sociais a outros fenômenos naturais (isso seria cometer o erro teórico e epistemológico do materialismo): a fundação da Sociologia implica que os fenômenos sociais são um tipo específico de realidade teórica e que devem ser explicados em termos sociais.
Em 1852 Comte instituiu uma sétima ciência, a Moral, cujo âmbito de pesquisa é a constituição psicológica do indivíduo e suas interações sociais.
Pode-se dizer que o conhecimento positivo busca "ver para prever, a fim de prover" - ou seja: conhecer a realidade para saber o que acontecerá a partir de nossas ações, para que o ser humano possa melhorar sua realidade. Dessa forma, a previsão científica caracteriza o pensamento positivo.
O espírito positivo, segundo Comte, tem a ciência como investigação do real. No social e no político, o espírito positivo passaria o poder espiritual para o controle dos "filósofos positivos", cujo poder é, nos termos comtianos, exclusivamente baseado nas opiniões e no aconselhamento, constituindo a sociedade civil e afastando-se a ação política prática desse poder espiritual - o que afasta o risco de tecnocracia (chamada, nos termos comtianos, de "pedantocracia").
O método positivo, em termos gerais, caracteriza-se pela observação. Entretanto, deve-se perceber que cada ciência, ou melhor, cada tipo de fenômeno tem suas particularidades, de modo que o método específico de observação para cada fenômeno será diferente. Além disso, a observação conjuga-se com a imaginação: ambas fazem parte da compreensão da realidade e são igualmente importantes, mas a relação entre ambas muda quando se passa da teologia para a positividade. Assim, para Comte, não é possível fazer ciência (ou arte, ou ações práticas, ou até mesmo amar!) sem a imaginação, isto é, sem uma ativa participação da subjetividade individual e por assim dizer coletiva: o importante é que essa subjetividade seja a todo instante confrontada com a realidade, isto é, com a objetividade.
Dessa forma, para Comte há um método geral para a ciência (observação subordinando a imaginação), mas não um método único para todas as ciências; além disso, a compreensão da realidade lida sempre com uma relação contínua entre o abstrato e o concreto, entre o objetivo e o subjetivo. As conclusões epistemológicas a que Comte chega, segundo ele, só são possíveis com o estudo da Humanidade como um todo, o que implica a fundação da Sociologia, que, para ele, é necessariamente histórica.
Além da realidade, outros princípios caracterizam o Positivismo: o relativismo, o espírito de conjunto (hoje em dia também chamado de "holismo") e a preocupação com o bem público (coletivo e individual). Na verdade, na obra "Apelo aos conservadores", Comte apresenta sete definições para o termo "positivo": real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.



A lei dos três estados



O alicerce fundamental da obra comtiana é, indiscutivelmente, a "Lei dos Três Estados", tendo como precursores nessa idéia seminal os pensadores Condorcet e, antes dele, Turgot.
Segundo o marquês de Condorcet, a humanidade avança de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida, em melhoramentos contínuos e, em princípio, infindáveis - sendo essa marcha o que explicaria a marcha da história.
A partir da percepção do progresso humano, Comte formulou a Lei dos Três Estados. Observando a evolução das concepções intelectuais da humanidade, Comte percebeu que essa evolução passa por três estados teóricos diferentes: o estado 'teológico' ou 'fictício', o estado 'metafísico' ou 'abstrato' e o estado 'científico' ou 'positivo', em que:
  • No primeiro, os fatos observados são explicados pelo sobrenatural, por entidades cuja vontade arbitrária comanda a realidade. Assim, busca-se o absoluto e as causas primeiras e finais ("de onde vim? Para onde vou?"). A fase teológica tem várias subfases: o fetichismo, o politeísmo, o monoteísmo.
  • No segundo, já se passa a pesquisar diretamente a realidade, mas ainda há a presença do sobrenatural, de modo que a metafísica é uma transição entre a teologia e a positividade. O que a caracteriza são as abstrações personificadas, de caráter ainda absoluto: "a Natureza", "o éter", "o Povo", "o Capital".
  • No terceiro, ocorre o apogeu do que os dois anteriores prepararam progressivamente. Neste, os fatos são explicados segundo leis gerais abstratas, de ordem inteiramente positiva, em que se deixa de lado o absoluto (que é inacessível) e busca-se o relativo. A par disso, atividade pacífica e industrial torna-se preponderante, com as diversas nações colaborando entre si.
É importante notar que cada um desses estágios representa fases necessárias da evolução humana, em que a forma de compreender a realidade conjuga-se com a estrutura social de cada sociedade e contribuindo para o desenvolvimento do ser humano e de cada sociedade.
Dessa forma, cada uma dessas fases tem suas abstrações, suas observações e sua imaginação; o que muda é a forma como cada um desses elementos conjuga-se com os demais. Da mesma forma, como cada um dos estágios é uma forma totalizante de compreender o ser humano e a realidade, cada uma delas consiste em uma forma de filosofar, isto é, todas elas engendram filosofias.
Como é possível perceber, há uma profunda discussão ao mesmo tempo sociológica, filosófica e epistemológica subjacente à lei dos três estados - discussão que não é possível resumir no curto espaço deste artigo.


A Religião da Humanidade

Capela Positivista em Porto Alegre
 
 
Os anseios de reforma intelectual e social de Comte desenvolveram-se por meio de suaReligião da Humanidade. Para Comte, "religião" e "teologia" não são termos sinônimos: a religião refere-se ao estado de unidade humana (psicológica, espiritual e social), enquanto a teologia refere-se à crença em entidades sobrenaturais. Considerando o caráter histórico e a necessidade de unidade do ser humano, a Religião da Humanidade incorpora nela a teologia e a metafísica - respeitando, reconhecendo e celebrando o papel histórico desempenhado por esses estágios provisórios, absorvendo o que eles têm de positivo (isto é, de real e de útil).
A Religião da Humanidade encontrou em Pierre Laffitte seu principal dirigente na França após a morte de Comte, especialmente na III República francesa. No Brasil, o Positivismo religioso encontrou grande aceitação no século XIX; embora com menor intensidade no século XX, o Positivismo religioso brasileiro teve grande importância: por exemplo, durante a campanha "O petróleo é nosso!", cujo vice-Presidente era o positivista Alfredo de Moraes Filho, e durante o processo de impeachment do ex-Presidente Fernando Collor de Mello, em que o Centro Positivista do Paraná também solicitou, assim como a Ordem dos Advogados do brasil e Assossiação Brasileira de Imprensa, o afastamento do Presidente da República.
A Igreja Positivita do Brasil, fundada por Miguel Lemos e Teixeira Mendes em 1881, em cujos quadros estiveram Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o Marechal Rondon e o diplomata Paulo Carneiro, continua ativa no Rio de Janeiro.

Obras

  • Opúsculos de Filosofia Social (1816-1828) (republicados em conjunto, em 1854, como apêndice ao volume IV do Sistema de política positiva)
  • Curso de filosofia positiva, em 6 volumes (1830-1842) (em 1848 foi renomeado para Sistema de filosofia positiva)
  • Discurso sobre o espírito positivo (1848)
  • Discurso sobre o conjunto do Positivismo (1851) (Introdução geral ao Sistema de política positiva)
  • Sistema de política positiva, em 4 volumes (1851-1854)
  • Catecismo positivista (1852)
  • Apelo aos conservadores (1855)
  • Síntese subjetiva (1856)
  • Correspondência, em 8 volumes (1816-1857)



A Religião da Humanidade




A Religião da Humanidade é o sistema religioso criado pelo francês Augusto Comte em 1854 como coroamento da carreira filosófica, em que procurou estabelecer as bases de uma completa espiritualidade humana, sem elementos extra-humanos ou sobrenaturais. A Religião da Humanidade também é conhecida como "Positivismo religioso".
Positivismos "religioso" e "filosófico"
À semelhança das demais religiões, a Religião da Humanidade tem dogma, culto e regime, templos e capelas; sacramentos,sacerdotes e assim por diante. Todavia, uma particularidade distingue-a radicalmente: ela é uma religião "positiva" ou "científica", no sentido de que não venera um ser superior sobrenatural. Assim sendo pode-se classificar a Religião da Humanidade como monista e naturalista. Nela não há espaço para o sobrenatural , pois todos os fenômenos tem origem e causa na natureza.

A Religião da Humanidade foi criada por Comte a partir de sua busca por uma espiritualidade plenamente humana, adaptada a uma época em que o ser humano pode viver esclarecido pela ciência, com uma atividade prática totalmente pacífica e baseada no altruísmo.

Entre 1830 e 1842 Comte publicou seu Sistema de Filosofia Positiva, em que repassou os principais resultados científicos de sua época, sistematizando-os e elaborando uma Filosofia da História e uma Filosofia da Ciência, assim, como, principalmente, criou a Sociologia. Após esse esforço, publicou entre 1851 e 1854 o Sistema de Política Positiva, em que se baseou nos principais resultados do Sistema de Filosofia mas deu um passo além, ao lançar as bases da nova espiritualidade a que nos referimos acima.

Devido ao linguajar empregado nessa nova obra - bem menos impessoal - e devido às referências a Clotilde de Vaux (sua esposa subjetiva e inspiradora), muitos pensadores afastaram-se do Positivismo, aceitando apenas sua obra "filosófica" ou "científica". Todavia, o próprio Comte sempre afirmou que os "verdadeiros positivistas são os religiosos", enquanto os outros são "positivistas incompletos". Seguem-se as próprias considerações de Auguste Comte a este respeito:

"O nome religião não apresenta, pela sua etimologia, nenhuma solidariedade necessária com as opiniões quaisquer que possam ser empregadas para atingir o fim que ele designa. Em si mesmo, este vocábulo indica o estado de completa unidade que distingue nossa existência, ao mesmo tempo pessoal e social, quando todas as suas partes, tanto morais como físicas, convergem habitualmente para um destino comum. Assim, este termo seria equivalente à palavra síntese, se esta não estivesse, segundo um uso quase universal, limitado hoje ao domínio só do espírito, ao passo que a outra compreende o conjunto dos atributos humanos. A religião consiste, pois, em regular cada natureza individual e em congregar todas as individualidades; o que constitui apenas dois casos distintos de um problema único. Visto que todo homem difere sucessivamente de si mesmo tanto quanto difere simultaneamente dos outros; de maneira que a fixidez e a comunidade seguem leis idênticas (“regular e congregar exigem necessariamente as mesmas condições fundamentais. A diversidade dos indivíduos não ultrapassa a dos estados sucessivos de cada espírito, de conformidade com o conjunto de suas dependências, exteriores e interiores. Toda doutrina própria para regular plenamente um só entendimento torna-se capaz de congregar gradualmente os outros cérebros, cujo número só pode influenciar na rapidez desse concurso. Este critério natural constituiu sempre a fonte secreta da confiança involuntária dos diversos renovadores filosóficos no ascendente social de todo sistema dignamente sancionado por essa prova pessoal. A fixidez de suas próprias convicções assegurava necessariamente a universalidade final dele”) (SPP, II, p. 10).

“Não podendo semelhante harmonia, individual ou coletiva, realizar-se nunca plenamente em uma existência tão complicada como a nossa, esta definição da religião caracteriza, portanto, o tipo imutável para o qual tende cada vez mais o conjunto dos esforços humanos. Nossa felicidade e nosso mérito consistem sobretudo em nos aproximarmos tanto quanto possível dessa unidade, cujo surto gradual constitui a melhor medida do verdadeiro aperfeiçoamento, pessoal ou social. Quanto mais se desenvolvem os diversos atributos humanos, tanto mais importância adquire o concurso habitual deles; este, porém, se tornaria também mais difícil se essa evolução não tendesse espontaneamente a tornar-nos mais disciplináveis”.

“O apreço que sempre se ligou a esse estado sintético devia concentrar a atenção sobre o modo de o instituir. Foi-se assim levado, tomando o meio pelo fim, a transferir o nome de religião ao sistema qualquer das opiniões correspondentes”.

“Por mais inconciliáveis, porém, que pareçam à primeira vista, essas numerosas crenças, o positivismo as combina essencialmente, referindo cada uma ao seu destino temporário e local”.

“ Não existe, no fundo, senão uma única religião, ao mesmo tempo universal e definitiva, para a qual tenderam cada vez mais as sínteses parciais e provisórias, tanto quanto o comportavam as respectivas situações. A esses diversos esforços empíricos sucede agora o desenvolvimento sistemático da unidade humana, cuja constituição direta e completa tornou-se enfim possível graças ao conjunto de nossas preparações espontâneas”.

“É assim que o positivismo dissipa naturalmente o antagonismo mútuo das diferentes religiões anteriores, formando seu domínio próprio do fundo comum a que todas se reportaram de modo instintivo. A sua doutrina não poderia tornar-se universal, se, apesar de seus princípios antiteológicos, o seu espírito relativo não lhe ministrasse necessariamente afinidades essenciais com cada crença capaz de dirigir passageiramente uma porção qualquer da Humanidade".



Culto


Na Religião da Humanidade se presta culto e adoração à "Trindade Positivista" composta pela "Humanidade" ou "Grande Ser" (entidade coletiva formada pelo conjunto de seres humanos convergentes do passado que contribuíram para o progresso da civilização, do presente e do futuro), pelo "Grande Fetiche" (o planeta Terra com todos os elementos que o compõe: vegetais, animais, água, terra etc.) e pelo "Grande Meio"(o espaço, os astros, o Universo)". Estes três Grandes seres são objetos de culto juntamente com as "leis naturais" que os regem e regulam, compondo assim a "Ordem Universal" que se constitui do conjunto formado pela "Ordem Natural" e pela "Ordem Humana".

O culto positivista muito tem em comum com o culto fetichista, com a diferença que os positivistas sabem que os fetiches não possuem "inteligência", sendo providos apenas de "vontade" e "sentimento" que estão por sua vez regulados e subordinados às "Leis Naturais". O positivistas religiosos acreditam na eternidade e imortalidade subjetiva da alma cultuando os mortos pelo legado que deixaram para a cultura humana: "Os vivos são cada vez mais necessariamente governados pelos mortos".

A Humanidade é definida como o "conjunto de seres humanos convergentes, passados, futuros e presentes" (Catecismo positivista) e é personificada por uma mulher de cerca de 30 anos, com uma criança no colo. Além disso, Comte recomendava que essa mulher tivesse as feições de sua esposa subjetiva e inspiradora Clotilde de Vaux ou o aspecto da Madona Sistina de Rafael.



Dogma


O dogma da Religião da Humanidade baseia-se na ciência, mas não se resume a ela, pois, mais importante que a instituição científica em si, o que importa para o Positivismo é o espírito positivo. Em rápidas palavras, o espírito caracteriza-se por ser "real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático" (Apelo aos conservadores).

O dogma central no qual está baseada a Religião da Humanidade e a filosofia positivista é a famosa "Lei dos 3 Estados" cujo enunciado é: "Toda concepção humana passa por 3 estados: teológico, metafísico e positivo, em uma velocidade proporcional a generalidade dos fenômenos correspondentes", isto é: todas as concepções do espírito humano desenvolvem-se através de três fases distintas: a teológica, a metafísica e a positiva.

No estado teológico a imaginação desempenha papel de primeiro plano. Diante da diversidade da natureza, o homem só consegue explicá-­la mediante a crença na intervenção de seres sobrenaturais. O mundo torna-se compreensível através das idéias de deuses e espíritos. O homem, nesse estágio de desenvolvi­mento, acredita ter posse absoluta do conhecimento.

Apresenta-se dividido em quatro períodos sucessivos: o fetichismo (ou "feiticismo", a astrolatria, o politeísmo e o monoteísmo. No fetichismo, uma vida semelhante à do homem, é atribuída aos seres naturais. A astrolatria consiste na adoração dos astros, ou seja, das "estrelas", da Lua e do Sol. O politeísmo esvazia os seres naturais de suas vidas anímicas e atribui a animação desses seres não a si mesmos, mas a outros seres, invisíveis e habitantes de um mundo sobrenatural chamados "deuses". No monoteísmo o homem reúne todas as divindades em uma só.

O estado metafísico é uma transição da teologia (em particular, do monoteísmo) para a positividade; é uma degradação da teologia que propriamente um estado "autônomo", pois concebe "forças", entidades abstratas para explicar os diferentes grupos de fenômenos, em substituição às divindades teológicas, mantendo-se as pesquisas finais e a busca do absoluto. Fala-se em "forças da natureza", "força vital" etc. Em um período posterior, a mentalidade metafísica reuniria todas essas forças numa só a chamada “Natureza”.

O estado positivo, ao contrário das concepções que caracterizam o estado teológico e metafísico, considera impossível a redução dos fenômenos naturais a um só princípio (Deus, natureza ou outro experiência equivalente). A unidade que o conhecimento pode alcançar somente pode ser, assim, inteiramente subjetiva.

Essa unidade do conhecimento não é apenas individual, mas também coletiva; isso faz da filosofia positiva o funda­mento intelectual da fraternidade entre os homens, possibilitando a vida prática em comum. O conhecimento positivo caracteriza-se pela previsibilidade: “ver para prever” é o lema da ciência positiva. A previsibilidade científica permite o desenvolvi­mento da técnica e, assim, o estado positivo corresponde à indústria, no sentido de exploração da natureza pelo homem.

Tomando como base a sinergia cerebral e a superioridade da síntese altruísta, as sete ciências unem-se irrevogavelmente ocupando-se em estudar, celebrar e servir o Grande Ser promovendo a reconciliação entre o coração e o espírito. Base sistemática da fé, a Ciência adquire assim uma santidade superior àquela verificada no estado teológico.

A religião da Humanidade possui dogmas verdadeiramente universais, fundamentados na escala enciclopédica de 7 graus composta pelas seguintes ciências: matemática, astronomia, física, química, biologia, sociologia e moral.



A Moral Positiva


A moral Positiva consiste basicamente em três máximas:

- "Viver para outrem" (predomínio do altruísmo sobre o egoísmo, que é a base da Religião da Humanidade);

- "Viver às claras" (quando se age corretamente, não há necessidade de segredos ou práticas ocultas);

- "Viver para o Grande Dia". (aludindo a época em que a sociedade humana alcançará seu estado normal).

Essas máximas regulam a vida privada e pública de cada indivíduo em uma sociedade normal. Na sociedade "normal" os indivíduos colaboram entre si, não havendo necessidade de competição, disputas individuais ou coletivas, em qualquer ambiente ou esfera social. O objetivo da moral positiva consiste em promover a evolução da Ordem gerando o Progresso.



Regime


O regime da Religião da Humanidade corresponde a sua parte prática e pode ser sintetizado através da aplicação da moral positiva. A moral positiva está baseada na subordinação do homem individual à sociedade, da sociedade local aos interesses da Pátria e desta à Humanidade.

O conjunto da moral torna-se um prolongamento necessário do dogma positivo quando a hierarquia enciclopédica se estende até a ordem individual: a subordinação normal da personalidade à sociabilidade, desta à vitalidade e desta à materialidade.

Nas palavras do próprio Augusto Comte: "Com efeito, a fim de constituir uma harmonia completa e duradoura, é preciso ligar o interior pelo amor e o religar ao exterior pela fé. Tais são, em geral, as participações necessárias do coração e do espírito nesse estado sintético, individual ou coletivo".

“A unidade supõe, antes de tudo, um sentimento ao qual se possam subordinar os nossos vários pendores. Visto que as nossas ações e os nossos pensamentos sendo sempre dirigidos pelos nossos afetos, a harmonia humana ficaria impossível se estes não fossem coordenados sob um instinto preponderante.”

“Mas esta condição interior da unidade não bastaria se a inteligência não nos fizesse reconhecer, fora de nós, uma potencia superior a que a nossa existência deve sempre se submeter, mesmo quando a modifica. É a fim de melhor sofrermos esse império supremo que a nossa harmonia moral, tanto individual como coletiva, se torna sobretudo indispensável. Reciprocamente, essa preponderância do exterior tende a regular o interior, favorecendo o ascendente do instinto mais conciliável com semelhante necessidade. Assim, as duas condições gerais de religião são naturalmente conexas, sobretudo quando a ordem exterior pode tornar-se o objeto do sentimento interior.



Sacramentos


A Religião da Humanidade apresenta nove sacramentos, todos eles relacionados integrando a vida individual à social:

1) Apresentação: o recém-nascido é admitido na Religião da Humanidade. Neste sacramento os pais e padrinhos comprometem a educar a criança como servidora da Humanidade.

2) Iniciação: é recebido pelos adolescentes e jovens de 15 a 21 anos. O rapaz e a menina são confiados ao Sacerdote da Humanidade, para receberem, gratuitamente do Sacerdote, os ensinamentos teóricos, que por sua vez compreendem:

a) Filosofia Primeira: conjunto das 15 Leis Universais da Fatalidade Suprema ou Destino.

b) Filosofia Segunda: conjunto de todas as leis compreendidas nas sete ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral.

3) Admissão: dos 22 até os 28 anos, os jovens entram em contato com a vida a fim de encontrar sua verdadeira vocação.

4) Destinação (virilidade): dos 29 aos 42 anos. Este sacramento é administrado após a escolha da profissão, em que o Sacerdote o consagra, para que ele exerça a carreira escolhida em nome da Humanidade.

5) Matrimônio: entre os 21 até 28 anos para a mulher e entre 28 até 35 para os homens, como regra geral. A finalidade do matrimônio, segundo a Religião da Humanidade, é o aperfeiçoamento recíproco dos cônjuges e não a procriação. O casamento é eterno e o divórcio é proibido. Os vínculos matrimoniais continuam válidos mesmo após a morte de um dos cônjuges. É a chamada "viuvez eterna".

6) Madureza: desde 43 até 62 anos. Corresponde ao período de plena responsabilidade, no qual os indivíduos devem tratar de cumprir a sua missão, de modo a merecer depois de sua morte a Incorporação na Humanidade.

7) Retiro: dos 63 anos até a morte. Aos 63 anos confere-se ao indivíduo o Sacramento do Retiro, onde este passa então, do trabalho ativo ou passivo tornando-se um conselheiro, auxiliando a sociedade com sua experiência.

8) Transformação: apreciação do conjunto da existência objetiva que se acaba, com o objetivo de registrar as impressões finais daquele que poderá se transformar em uma parcela subjetiva do Grande-Ser. As cerimônias referentes a este Sacramento estendem-se até a inumação (enterro).

9) Incorporação: sete anos depois da morte ou transformação, tem lugar o Sacramento da Incorporação. Este consiste no julgamento da memória do morto. Quando o Morto for considerado Digno de ser Incorporado à Humanidade , seus restos mortais serão conduzidos ao Bosque Sagrado, em sepulturas conjuntas com seus entes queridos. Esse Bosque Sagrado circunda cada Templo da Humanidade.



O Lema Positivista


A Religião da Humanidade possui como lema religioso a máxima: "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim".

O amor deve coordenar o princípio de todas as ações individuais e coletivas. A Ordem consiste na conservação e manutenção de tudo o que é bom, belo e positivo. O progresso é a consequência do desenvolvimento e aperfeiçoamento da Ordem. Assim sendo, do desenvolvimento da Ordem resulta o Progresso individual, moral e social. O lema político "Ordem e Progresso" origina-se do lema religioso e possui como significado "melhorar conservando", isto é, conservar e aperfeiçoar o que é bom e corrigir e eliminar o que é ruim.



Conclusão


O "poder superior”, que nossos antepassados explicavam pela existência de vontades sobrenaturais, o positivismo demonstra como existindo em um ser não-sobrenatural, mas natural e real, proveniente da solidariedade e da continuidade humanas, na forma de um crescente tesouro de conquistas teóricas e práticas que a espécie acumula, a duras penas, e lega de geração a geração. Subjetivamente podemos sentir a presença de todos aqueles a cujos esforços devemos o estagio do presente. E essa presença subjetiva estende-se para o futuro onde nos vemos e nos sentimos num eterno evoluir regido pela ordem natural. Nas Palavras de Auguste Comte:

"O presente vem do passado e projeta-se para o futuro, essas três existências comuns a todos os seres individuais e coletivos formam o Grande Ser subjetivo que constitui a nossa providência e condensa tudo o que há de belo, verdadeiro e bom".

"A existência do Grande Ser assenta necessariamente sobre a subordinação contínua da população objetiva à dupla população subjetiva. Esta fornece, de uma lado a fonte, de outro o fim, da ação que só aquela exerce diretamente. Trabalhamos sempre para nossos descendentes, mas sob o impulso de nossos ancestrais, de onde derivam ao mesmo tempo os elementos e os procedimentos de todas nossas operações. O principal privilégio de nossa natureza consiste em que cada individualidade perpetua-se aí indiretamente pela existência subjetiva, se seu surto objetivo tiver deixado resultados dignos. Estabelece-se assim, desde a própria origem, a continuidade propriamente dita, a qual nos caracteriza mais do que a simples solidariedade, quando nossos sucessores prosseguem nosso desempenho como nós prolongamos o de nossos predecessores" (SPP, p. 34).



Lei dos Três Estados


Lei dos três estados é o conceito fundamental da obra filosófica, científica e política do autor francês Auguste Comte (1798-1857), o fundador do positivismo. Essa idéia é "fundamental" porque, literalmente, lança os fundamentos das elaborações de Comte e permite que se relacionem de maneira harmônica vários âmbitos da existência do ser humano, desde as belas-artes até a política, passando pelas ciências e pela economia. Ela é uma concepção ao mesmo tempo epistemológica, histórica e filosófica (em sentido amplo), tendo permitido a Comte criar a Sociologia, a História das Ciências e também a Psicologia Positiva (por ele chamada de "Moral").

Sugerida ao longo do século XVIII por pensadores como Turgot e Condorcet, a Lei dos Três Estados foi apresentada por A. Comte em 1822 no opúsculo Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade. Embora as idéias subjacentes à "lei dos três estados" tenham permanecido constantes ao longo da carreira comtiana, o fato é que o seu enunciado teve algumas variações menores entre 1822 e 1852 (ano em que A. Comte escreveu o Catecismo positivista e apresentou o enunciado final da lei).

O enunciado da Lei dos Três Estados
Eis o enunciado presente no Catecismo positivista (conforme aparece na quarta edição brasileira da Igreja Positivista do Brasil, de 1934, página 479):

"Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes".

De maneira complementar à Lei dos Três Estados, há a Lei do Classamento das Ciências. De acordo com essa lei complementar, as ciências são as seguintes: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia, Moral (ou Psicologia Positiva).



Explicando as leis


Conjugando as duas leis - a dos Três Estados e a da Classificação das Ciências -, o resultado é o seguinte.

Toda concepção humana - para o que interessa aqui: toda concepção abstrata - passa por três fases sucessivas: teológica, metafísica e positiva; a fase teológica, por sua vez, subdivide-se em fetichista, politeísta (ou politeica) e monoteísta (ou monoteica). Essas fases correspondem a formas de explicar os fenômenos tratados em cada concepção. Na fase teológica, os fenômenos são explicados a partir de vontades supra-humanas e sobrenaturais, que manipulam à vontade a realidade. Na fase metafísica, os fenômenos são explicados com recurso a abstrações teóricas que assumem vontades personificadas. Na fase positiva, por fim, os fenômenos são explicados por meio de leis naturais, que estabelecem relações de sucessão e semelhança. Além disso, a teologia e a metafísica são absolutas em termos filosóficos e buscam as causas primeiras e finais ("de onde viemos?", "para onde vamos?" etc.), ao passo que a positividade é relativista e humanista, deixando de lado os "porquês" absolutos.

É importante notar que a "positividade" não é a mesma coisa que a simples "ciência" ou o "cientificismo". A positividade considera a totalidade da natureza humana (que é tripla: sentimentos, inteligência e atividade) e procura aplicar em sua integralidade o espírito positivo.

A velocidade com que as concepções humanas passam por essas fases de acordo com dois critérios: generalidade descrescente e complexidade crescente.

Em outras palavras, quanto mais geral for o fenômeno em questão, mais rapidamente ele tornar-se-á positivo; quanto mais complexo (ou seja, quanto maior a quantidade de variáveis intervenientes), mais demorada será essa passagem.

A Lei da Classificação das Ciências corresponde, portanto, à sucessão histórica e teórica dos tipos de fenômenos que passaram pelas três fases (teológica, metafísica e positiva). Esses tipos de fenômenos são agrupados nas sete ciências fundamentais, necessariamente de caráter abstrato, indicadas acima: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral (ou Psicologia Positiva).



Não há apenas uma Lei dos Três Estados


Diferentemente do que se afirma correntemente, não há apenas uma única Lei dos Três Estados; na verdade, elas são três. Por que essa quantidade? Porque, para Comte, o ser humano tem uma natureza tripla: ele é constituído por 1) sentimentos e instintos; 2) por idéias e crenças e 3) por ações práticas.

A "Leis dos Três Estados" mais conhecida - e que, com justiça, como dito acima, é considerada a fundamental - é a relativa às idéias. As outras duas são as seguintes (Catecismo positivista, 4ª ed., Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, p. 479):

atividade prática: "A atividade é primeiro conquistadora, em seguida defensiva e enfim industrial"
sentimentos e instintos: "A sociabilidade é primeiro doméstica, em seguida cívica e enfim universal, segundo a natureza peculiar a cada um dos três instintos simpáticos [veneração, apego e bondade]".
Elas querem dizer o seguinte.

Na lei da atividade prática, o ser humano começa sua história fazendo a guerra expansionista, isto é, para conquistar territórios; em seguida, ele faz guerra defensiva, ou seja, faz guerras para defender-se de ataques externos; por fim, a sua atividade principal deixa de ser guerreira e torna-se pacífica, destinada à satisfação das várias necessidades humanas (materiais, intelectuais, afetivas).

Na lei dos sentimentos e dos instintos, o ser humano começa sua história preocupando-se com suas vinculações familiares (clãs, tribos), em que a base da associação é o respeito aos mais velhos (ou aos mais fortes). Em seguida, as associações humanas ampliam-se e sua base passa a ser cívica, nas cidades ou nas nações; por fim, o ser humano vincula-se a toda a humanidade, por meio da mais pura bondade (isto é, a preocupação com os outros, com os mais fracos ou com quem vem depois de nós).

A realização dessas três leis dos Três Estados constituirá, na visão de Comte, a realização do seu Positivismo, isto é, da Religião da Humanidade.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Mitologia & Filosofia I





MITOLOGIA E FILOSOFIA: UM DEBATE
Por José Sobreira Barros Júnior
Mestre em Filosofia-PUC/SP
                  
Um dos fatos mais interessantes na história da humanidade como um todo é tentar explicar o início de tudo, os acontecimentos do cotidiano e as possibilidades de entender a vida pós-morte. Em todos os tempos sempre ocorreu aos homens perguntar-se sobre sua origem e a do próprio universo que os cerca.
Estas respostas ou tentativas de respostas às questões acima levantadas nunca foram privilégio de todos, sempre “especialistas” de todas as matizes, dos sacerdotes, aos reis, os papas, ou mesmo os cientistas, sempre tiveram o privilégio de tentar deter o “saber responder”, estes questionamentos.
Desta forma, sempre ocorreu a interrogação do “de onde viemos” e “para onde iremos” e as respostas se sucedem no transcorrer do tempo. Quando falamos que são perguntas ou explicações que estão presentes no transcorrer da evolução da vida racional do ser humano, queremos dizer que, qualquer tribo perdida em qualquer lugar do planeta de uma maneira ou de outra vai apresentar essas inquietações, basta ver as tribos indígenas na América do Sul, seus mitos tentam explicar a natureza e seus fenômenos.
 “O mito é uma narrativa imaginária que estrutura e organizam de forma criativa as crenças culturais. As divindades constituíam os personagens que, pelas divergências, intrigas, amizades e desejo de justiça, explicavam tanto a natureza humana como os resultados das guerras e os valores culturais”. (Cassiano Carde in  “Para Filosofar”, p. 9 Ed. Scipione).
Portanto, o fantástico entra em cena para dar conta de um real, isto é, a realidade antes de tudo explicada dentro de uma super dimensão.
A questão é que temos que entender o processo mitológico como uma estrutura  de entendimento da realidade, não só no passado mas também no presente.
Em dois momentos, séc. XVIII (com o Iluminismo) e séc. XIX (com o hegelianismo e o positivismo), encontramos a idéia de que superar a perspectiva mitológica é para a humanidade uma evolução. Desta forma, a reflexão mitológica pertenceria a culturas primitivas ou mesmo atrasadas.
Na antropologia, a perspectiva de uma explicação mítica é defendida por Lévi-Strauss como bricoleur, isto é, a produção de objetos  partindo de pedaços e fragmentos de outros objetos. Desta forma, a realidade vai interligando-se paulatinamente ao conjunto de suas crenças. O pensamento mítico vai estruturando-se como experiências, relatos e narrativas.
Desta forma, o pensamento mítico, como afirma Chauí (ob. cit. p.161/162), apresenta três características principais.
 “função explicativa: o presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permanecem no tempo. Por exemplo, uma constelação existe porque, no passado, crianças fugitivas e famílias morreram na floresta e foram levadas ao céu por uma deusa que as transformou em estrelas; as chuvas existem porque, nos tempos passados, uma deusa apaixonou-se por um humano e, não podendo unir-se a ele diretamente, uniu-se pela tristeza, fazendo suas lágrimas caírem sobre o mundo, etc.;
 função organizativa: o mito organiza as relações sociais (de parentesco, de alianças, de trocas, de sexo, de idade, de poder, etc) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões. Por exemplo, um mito como o de Édipo ( Quando Édipo nasce, um vidente, Tirésias, prevê que o menino matará o pai e casará com a mãe. Apavorado, o rei Laio – o pai – manda matar Édipo. O escravo que deveria matar o menino sente piedade e o lança num precipício sem verificar se está ou não morto; e entrega ao rei o coração de uma corça, como se fosse o de Édipo. A criança não morre e é recolhida por um pastor. Este, por sua vez, a entrega a um outro rei, que, idoso, lamentava não ter filhos. Ao crescer, Édipo suspeita que não é filho de seus país adotivos e sai à procura dos pais verdadeiros. No caminho, vê uma batalha entre um grupo numeroso e um pequeno; coloca-se ao lado deste ultimo e mata o chefe do outro grupo  - seu pai, Laio. Chegando a sua cidade natal, fica sabendo que um monstro estava devorando as virgens e só interromperá a matança se alguém decifrar um enigma que propõe. Édipo decifra o enigma. Como recompensa, recebe a rainha em casamento. Casa-se com Jocasta, sem saber que se tratava de sua verdadeira mãe, e com ela tem filhos. A profecia se cumpre. A cidade será castigada com a peste e, ao tentar combate-la, pedindo aos deuses que lhe digam o que a causou, Èdipo fica sabendo, por Tirésias, que matou o pai e casou-se com a mãe. Fura os olhos e exila-se, enquanto Jocasta se suicida.) existe (com narrativas diferentes) em quase todas as sociedades selvagens e tem a função de garantir a proibição do incesto, sem a qual o sistema sociopolítico, baseado nas leis de parentesco e de alianças, não pode ser mantido;
função compensatória: o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo de oferecer uma visão estabilizada e regularizada da Natureza e da vida comunitária.”
                Desta forma, o mito é explicado dentro de uma realidade, porém não podemos deixar de destacar o processo mitológico na Grécia antiga. O mito entre os gregos assume um papel diferente na sua dimensão do fantástico, pois este, é mais humano, está interligado à vida cotidiana das pessoas, o que não encontramos no Oriente por exemplo. Esta é uma questão primordial, a filosofia nasce debatendo com o mito – não vamos aqui entrar no debate sobre se a filosofia é um derivado maior da perspectiva mítica da realidade – e, portanto, apresentando uma estrutura racional sobre a realidade na sua perspectiva de construção de uma cosmologia.
FILOSOFIA E MITO – o debate.
Portanto, pensar sobre o debate entre mitologia e filosofia é, antes de tudo, procurar as razões que se diferem nas duas explicações de realidade.
A mitologia é uma narrativa que conta de maneira fantástica o passado, já á filosofia tem uma preocupação com o passado, o presente e o futuro. Desta forma, o refletir filosófico é, antes de tudo, uma perspectiva de totalidade de tempo.
Quando o mito narra a origem das coisas apresenta toda uma genealogia com rivalidades e alianças entre as coisas, as forças divinas que são sobrenaturais ou mesmo personalizadas. Já na filosofia encontramos uma busca explicativa sobre como a natureza determina um elemento único de formação da cosmologia. Assim, os primeiros filósofos pré-socráticos, estão procurando o elemento norteador do Universo e da vida na terra, água, fogo, ar, átomo, etc.
Assim, o mito fala em Urano, Ponto e Gaia e a reflexão filosófica apresenta o céu, o mar e a terra. Sendo que diferentemente da explicação mitológica onde estes elementos surgem por casamentos a filosofia os explica, como um processo de separação de quatro elementos (úmidos, seco, quente e frio ou água, terra, fogo e ar).
A autoridade religiosa do narrador permite a este não se importar com as possíveis contradições narrativas do processo mítico. A filosofia por sua vez não permite contradições, fabulações, mas sim o discurso lógico, sem contradições, a autoridade não esta no filosofo, mas sim na razão que esta permeando o pensamento lógico.
Chauí destaca ainda que alguns elementos tais como, as viagens marítimas, a invenção do calendário, a invenção da moeda, o surgimento da vida urbana, a invenção da escrita alfabética e a invenção da política, foram fundamentais para o surgimento da filosofia na Grécia Antiga.
O filósofo é aquele que tem como ponto de partida para a análise da realidade a razão, esta com seus princípios e regras determina um critério para o seu processo de evolução analítica. Somente desta maneira a reflexão filosófica poderá trabalhar com a contradição e com o pensamento universal. Será ainda parte do refletir filosófico a duvida constante e a tendência para a generalização. Entendemos generalização como é apresentado por Chauí (ob. cit. p.33) ; “mostrar que uma explicação tem validade para muitas coisas diferentes porque, sob a variação percebida pelos órgãos de nossos sentidos, o pensamento descobre semelhanças e identidades.”.
Porém, não podemos esquecer, os próprios filósofos na Grécia Antiga utilizaram a mitologia ou a alegoria para o processo de reflexão filosófica. É o caso de Platão e a alegoria da Caverna ou “mito” da Caverna.
A leitura da realidade passa por vários caminhos, tanto no passado como no presente, desvendar os mitos, tornar possível os caminhos da razão humana é o papel do filosofar no passado e no presente, pois só assim, poderemos construir uma episteme  capaz de estruturar uma totalidade.
MITO E MODERNIDADE
O mito na modernidade passa por um processo de transformação? Esta é uma questão que ainda esta em aberto na nossa sociedade. Dizíamos acima, no transcorrer do texto, que o mito é antes de tudo uma explicação fantástica sobre uma realidade, porém sabemos, que na Antigüidade o processo mitológico unificava a comunidade, pois, este se apresentava sempre de uma maneira coletiva.
De outra forma, é também na Antigüidade que percebemos o caráter dogmático dos mitos. Portanto, uma verdade que não necessita ser; provada e muito menos aceita um questionamento a verdade que esta apresentando.
Esta perspectiva na Mitologia Antiga é uma referência fundamental no seu debate com a filosofia, enquanto esta parte de uma procura racional a mitologia apresenta-se nos seus aspectos gerais dogmaticamente.
A filosofia ganhou este debate no passado? como, o mesmo, esta presente hoje no nosso dia a dia?
O positivismo de Augusto Comte, explicava a evolução da humanidade em três aspectos; o mítico (teológico), o filosófico (metafísico) e o científico. Para os positivistas o último estágio seria o coroamento da razão humana. Por sua vez seria o cientifico a única forma de possibilidade de se chegar a uma verdade.
Mas o próprio endeusamento da razão, não seria também um mito? Esta razão, tudo resolve? O homem também não necessita de paixões como dado de uma realidade e sua explicação?
Estas questões são colocadas de uma maneira fundamental no debate entre mitologia e razão filosófica nos dias de hoje. Isto é, será que o fantástico não é utilizado na atualidade como parte de explicação desta mesma realidade?
O mito não é por demais utilizado como senso comum no aspecto político-social? Esta é uma questão central e devemos estar preparados para procurar responde-la. Hoje o nosso cotidiano está cercado de aspectos mitológicos em vários sentidos, onde, as crenças são uma primeira referencia não crítica da realidade para diversas pessoas.
O “super – homem” racionalista é também uma figura mítica, porém, incapaz de solucionar questões básicas que estão presentes na realidade.
O papel dos meios de comunicação no sentido de divulgar e principalmente forjar novos heróis na luta do bem e do mal é fundamental para analisar nossa questão central. Neste aspecto, o texto das professoras Maria Lucia de Arruda Aranha  e Maria Helena Pires Martins, são fundamentais, para uma ampliação do nosso tema.:
 “Hoje em dia, os meios de comunicação de massa trabalham em cima dos desejos e anseios que existem na nossa natureza inconsciente e primitiva.
Os super heróis dos desenhos animados e dos quadrinhos, bem como os personagens de filmes como Rambo, Os justiceiros e outros, passam a encarnar o Bem e a Justiça e assumem a nossa proteção imaginária, exatamente porque o mundo moderno, com inflação, seqüestros, violência e instabilidade no emprego, especialmente nos grandes centros urbanos, revela-se cada vez mais um lugar extremamente inseguro. Artistas e esportistas podem ser transformados em modelos exemplares: são fortes, saudáveis, bem alimentados, têm sucesso na profissão – sucesso que é traduzido em reconhecimento social e poder econômico - , são excelentes pais, filhos e maridos, vivem cercados de pessoas bonitas, interessantes e ricas. Como não mitifica-los?
Até a novela, ao trabalhar a luta entre o bem e o mal, está  lidando com valores míticos, pré-reflexivos, que se encontram dentro de todos nós. Aliás, nas novelas, o casamento também é transformado em mito: é o grande anseio dos jovens enamorados, é a solução de todos os problemas, o apaziguamento de todas as paixões e conflitos. Por isso quase todas terminam com um verdadeiro festival de casamentos.
Só que os astros transformados em mito são heróis sem poder real: têm somente poder simbólico no imaginário da população.” (ob. cit. p. 64).
Sendo assim, está é uma questão básica; descobrir aonde se localiza o processo mitológico hoje. Sabemos que o mito moderno não ocupa ou não têm o mesmo papel existencial do passado, isto é, do mito primitivo. Talvez como um reflexo da estrutura produtiva do sistema em que vivemos, o mito moderno não mais se apresenta como algo que contextualize a totalidade de uma realidade.
E aqui entramos em uma outra questão muito pertinente de nossa atualidade, isto é, seria possível percebermos essa totalidade? A resposta é sim, caberá a razão filosófica aprofundá-la e ao mesmo tempo, determinar uma livre escolha de cada um sobre quais serão seus modelos de mitos ou de vida aceitáveis.
foram fundamentais para o surgimento da filosofia na Grécia Antiga.
O filósofo é aquele que tem como ponto de partida para a análise da realidade a razão, esta com seus princípios e regras determina um critério para o seu processo de evolução analítica. Somente desta maneira a reflexão filosófica poderá trabalhar com a contradição e com o pensamento universal. Será ainda parte do refletir filosófico a duvida constante e a tendência para a generalização. Entendemos generalização como é apresentado por Chauí (ob. cit. p.33) ; “mostrar que uma explicação tem validade para muitas coisas diferentes porque, sob a variação percebida pelos órgãos de nossos sentidos, o pensamento descobre semelhanças e identidades.”.
Porém, não podemos esquecer, os próprios filósofos na Grécia Antiga utilizaram a mitologia ou a alegoria para o processo de reflexão filosófica. É o caso de Platão e a alegoria da Caverna ou “mito” da Caverna.
A leitura da realidade passa por vários caminhos, tanto no passado como no presente, desvendar os mitos, tornar possível os caminhos da razão humana é o papel do filosofar no passado e no presente, pois só assim, poderemos construir uma episteme  capaz de estruturar uma totalidade.
MITO E MODERNIDADE
O mito na modernidade passa por um processo de transformação? Esta é uma questão que ainda esta em aberto na nossa sociedade. Dizíamos acima, no transcorrer do texto, que o mito é antes de tudo uma explicação fantástica sobre uma realidade, porém sabemos, que na Antigüidade o processo mitológico unificava a comunidade, pois, este se apresentava sempre de uma maneira coletiva.
De outra forma, é também na Antigüidade que percebemos o caráter dogmático dos mitos. Portanto, uma verdade que não necessita ser; provada e muito menos aceita um questionamento a verdade que esta apresentando.
Esta perspectiva na Mitologia Antiga é uma referência fundamental no seu debate com a filosofia, enquanto esta parte de uma procura racional a mitologia apresenta-se nos seus aspectos gerais dogmaticamente.
A filosofia ganhou este debate no passado? como, o mesmo, esta presente hoje no nosso dia a dia?
O positivismo de Augusto Comte, explicava a evolução da humanidade em três aspectos; o mítico (teológico), o filosófico (metafísico) e o científico. Para os positivistas o último estágio seria o coroamento da razão humana. Por sua vez seria o cientifico a única forma de possibilidade de se chegar a uma verdade.
Mas o próprio endeusamento da razão, não seria também um mito? Esta razão, tudo resolve? O homem também não necessita de paixões como dado de uma realidade e sua explicação?
Estas questões são colocadas de uma maneira fundamental no debate entre mitologia e razão filosófica nos dias de hoje. Isto é, será que o fantástico não é utilizado na atualidade como parte de explicação desta mesma realidade?
O mito não é por demais utilizado como senso comum no aspecto político-social? Esta é uma questão central e devemos estar preparados para procurar responde-la. Hoje o nosso cotidiano está cercado de aspectos mitológicos em vários sentidos, onde, as crenças são uma primeira referencia não crítica da realidade para diversas pessoas.
O “super – homem” racionalista é também uma figura mítica, porém, incapaz de solucionar questões básicas que estão presentes na realidade.
O papel dos meios de comunicação no sentido de divulgar e principalmente forjar novos heróis na luta do bem e do mal é fundamental para analisar nossa questão central. Neste aspecto, o texto das professoras Maria Lucia de Arruda Aranha  e Maria Helena Pires Martins, são fundamentais, para uma ampliação do nosso tema.:
 “Hoje em dia, os meios de comunicação de massa trabalham em cima dos desejos e anseios que existem na nossa natureza inconsciente e primitiva.
Os super heróis dos desenhos animados e dos quadrinhos, bem como os personagens de filmes como Rambo, Os justiceiros e outros, passam a encarnar o Bem e a Justiça e assumem a nossa proteção imaginária, exatamente porque o mundo moderno, com inflação, seqüestros, violência e instabilidade no emprego, especialmente nos grandes centros urbanos, revela-se cada vez mais um lugar extremamente inseguro. Artistas e esportistas podem ser transformados em modelos exemplares: são fortes, saudáveis, bem alimentados, têm sucesso na profissão – sucesso que é traduzido em reconhecimento social e poder econômico - , são excelentes pais, filhos e maridos, vivem cercados de pessoas bonitas, interessantes e ricas. Como não mitifica-los?
Até a novela, ao trabalhar a luta entre o bem e o mal, está  lidando com valores míticos, pré-reflexivos, que se encontram dentro de todos nós. Aliás, nas novelas, o casamento também é transformado em mito: é o grande anseio dos jovens enamorados, é a solução de todos os problemas, o apaziguamento de todas as paixões e conflitos. Por isso quase todas terminam com um verdadeiro festival de casamentos.
Só que os astros transformados em mito são heróis sem poder real: têm somente poder simbólico no imaginário da população.” (ob. cit. p. 64).
Sendo assim, está é uma questão básica; descobrir aonde se localiza o processo mitológico hoje. Sabemos que o mito moderno não ocupa ou não têm o mesmo papel existencial do passado, isto é, do mito primitivo. Talvez como um reflexo da estrutura produtiva do sistema em que vivemos, o mito moderno não mais se apresenta como algo que contextualize a totalidade de uma realidade.
E aqui entramos em uma outra questão muito pertinente de nossa atualidade, isto é, seria possível percebermos essa totalidade? A resposta é sim, caberá a razão filosófica aprofundá-la e ao mesmo tempo, determinar uma livre escolha de cada um sobre quais serão seus modelos de mitos ou de vida aceitáveis.







http://www.mundociencia.com.br/filosofia/mitos.htm
FILOSOFIA - OS MITOS
Os mitos e a religião são fenômenos universais: surgiram em todos os lugares, em todos os povos. A Filosofia, pelo contrário, é algo mais restrito. Em poucos lugares do mundo, como a Grécia e a Índia, apareceu gradualmente um pensamento filosófico que procurou dar uma explicação para o mundo sem utilizar mitos. Mas isso não aconteceu de repente nem houve um abandono total das concepções mitológicas e religiosas. Muitas vezes elas foram aproveitadas pelos filósofos. Por isso, para entender o surgimento da Filosofia, é preciso partir dos próprios mitos.
A mitologia grega foi de grande importância e influenciou toda a cultura ocidental. Os textos mais antigos que conservam informações sobre a mitologia grega são as obras atribuídas a Homero(Ilíada e Odisséia), elaboradas aproximadamente nos séculos XI ou VIII antes da era cristã, e as obras de Hesíodo, do final do século VIII antes de Cristo. Estas obras são poemas orais que passaram de gerações a gerações transcritos posteriormente.
A antiga visão de mundo dos gregos era de que a Terra (a deusa Gaia ou Géia) era uma superfície circular, plana(exceto em suas irregularidades, como as montanhas), semelhante a um prato ou disco. O céu (o deus Urano) seria a metade de uma esfera oca, colocada sobre a Terra. Entre a Terra e o céu existiriam duas regiões: a primeira, mais baixa, que vai da superfície do solo até as nuvens, seria a região do ar e das brumas. A segunda seria o ar superior e brilhante, azul, que é visto durante o dia, e que era chamado de éter. Embaixo da Terra, existiria uma região sem luz, o Tartaros. Em volta do Tartaros, existiriam três camadas da noite. A noite é considerada como uma deusa assustadora, a quem todos os deuses respeitam.
A Terra conteria todas as regiões secas conhecidas na época(Europa, Ásia e Áfria). Todas elas seriam cercadas por uma a espécie de rio circular, o oceano, que iria até a borda onde o céu e a Terra se encontram. O oceano é descrito como a fonte e origem de todos os rios e mares, Homero chega a descrevê-lo como a origem de todas as coisas e dos próprios deuses.