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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Auguste Comte







Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (Montpellier, 19 de janeiro de 1798 - Paris, 5 de setembro de 1857) foi um filósofo frânces, fundador da Sociologia e do Positivismo.
Nascido em Montpellier, no Sul da França, Auguste Comte desde cedo revelou uma grande capacidade intelectual e uma memória prodigiosa. Seu interesse pelas ciências naturais era conjugado pelas questões históricas e sociais e, com 16 anos, em 1814, ingressou na Escola Politécnica de Paris. No período de 1817-1824 foi secretário do conde Henri de Saint-Simon (1760-1825), expoente do socialismo utópico; todavia, como Saint-Simon apropriava-se dos escritos de seus discípulos para si e como dava ênfase apenas à economia na interpretação dos problemas sociais, Comte rompeu com ele, passando a desenvolver autonomamente suas reflexões. São dessa época algumas fórmulas fundamentais: "Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto" (1819) e "Todas as concepções humanas passam por três estádios sucessivos - teológico, metafísico e positivo -, com uma velocidade proporcional à velocidade dos fenômenos correspondentes" (1822) (a famosa "lei dos três estados").
Comte trabalhava intensamente na criação de uma filosofia positiva quando, em virtude de problemas conjugais sofreu um colapso nervoso, em 1826. Recuperado, mergulhou na redação do Curso de filosofia positiva (posteriormente, em 1848, renomeado para Sistema de filosofia positiva), que lhe tomou doze anos. Em 1842, por criticar a corporação universitária francesa, perdeu o emprego de examinador de admissão à Escola Politécnica e começou a ser ajudado por admiradores, como o pensador inglês John Stuart Mill (1806-1873). No mesmo ano, Comte separou-se de Caroline Massin, após 17 anos de casamento. Em 1845, apaixonou-se por Clotilde de Vaux, que morreria no ano seguinte por tuberculose. Entre 1851 e 1854 Comte redigiu o Sistema de política positiva, em que extraiu algumas das principais consequências de sua concepção de mundo não-teológica e não-metafisica, propondo uma interpretação pura e plenamente humana para a sociedade e sugerindo soluções para os problemas sociais; no volume final dessa obra, apresentou as instituições principais de sua Religião da Humanidade Em 1856  publicou o livro Síntese subjetiva, primeiro e único volume de uma série de quatro dedicados a tratar de questões específicas das sociedades humanas: lógica, indústria, pedagogia, psicologia, mas faleceu, possivelmente de câncer, em 5 de setembro de 1857 em Paris Sua última casa, na rua Monsieur-le-Prince, 10, foi posteriormente adquirido por positivistas e transformado no Museu Casa de Augusto Comte.
Todavia, é importante notar que uma grande confusão terminológica ocorre com a obra de Comte e seu "Positivismo": ele não tem nenhuma ou pouca relação com o chamado Positivismo Jurídico, ou Juspositivismo, de Hans Kelsen; com a "Psicologia positivista", ou "behaviorismo" (ou "comportamentalismo"), de Watson e Skinner; com o Neopositivismo, do Círculo de Viena, de Otto Neurath, Carnap e seus diversos associados, nem com tantos outros "positivismos" de outras áreas do conhecimento.




Teorias

 A filosofia positiva

A filosofia positiva de Comte nega que a explicação dos fenômenos naturais, assim como sociais, provenha de um só princípio. A visão positiva dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos (Deus ou natureza) e pesquisa suas leis, vistas como relações abstratas e constantes entre fenômenos observáveis.
Adotando os critérios histórico e sistemático, outras ciências abstratas antes da Sociologia, segundo Comte, atingiram a positividade: a Matemática, a Astronomia, a física, a Química e a Biologia. Assim como nessas ciências, em sua nova ciência inicialmente chamada de física social e posteriormente Sociologia, Comte usaria a observação, a experimentação, da comparação e a classificação como métodos - resumidas na filiação histórica - para a compreensão (isto é, para conhecimento) da realidade social. Comte afirmou que os fenômenos sociais podem e devem ser percebidos como os outros fenômenos da natureza, ou seja, como obedecendo a leis gerais; entretanto, sempre insistiu e argumentou que isso não equivale a reduzir os fenômenos sociais a outros fenômenos naturais (isso seria cometer o erro teórico e epistemológico do materialismo): a fundação da Sociologia implica que os fenômenos sociais são um tipo específico de realidade teórica e que devem ser explicados em termos sociais.
Em 1852 Comte instituiu uma sétima ciência, a Moral, cujo âmbito de pesquisa é a constituição psicológica do indivíduo e suas interações sociais.
Pode-se dizer que o conhecimento positivo busca "ver para prever, a fim de prover" - ou seja: conhecer a realidade para saber o que acontecerá a partir de nossas ações, para que o ser humano possa melhorar sua realidade. Dessa forma, a previsão científica caracteriza o pensamento positivo.
O espírito positivo, segundo Comte, tem a ciência como investigação do real. No social e no político, o espírito positivo passaria o poder espiritual para o controle dos "filósofos positivos", cujo poder é, nos termos comtianos, exclusivamente baseado nas opiniões e no aconselhamento, constituindo a sociedade civil e afastando-se a ação política prática desse poder espiritual - o que afasta o risco de tecnocracia (chamada, nos termos comtianos, de "pedantocracia").
O método positivo, em termos gerais, caracteriza-se pela observação. Entretanto, deve-se perceber que cada ciência, ou melhor, cada tipo de fenômeno tem suas particularidades, de modo que o método específico de observação para cada fenômeno será diferente. Além disso, a observação conjuga-se com a imaginação: ambas fazem parte da compreensão da realidade e são igualmente importantes, mas a relação entre ambas muda quando se passa da teologia para a positividade. Assim, para Comte, não é possível fazer ciência (ou arte, ou ações práticas, ou até mesmo amar!) sem a imaginação, isto é, sem uma ativa participação da subjetividade individual e por assim dizer coletiva: o importante é que essa subjetividade seja a todo instante confrontada com a realidade, isto é, com a objetividade.
Dessa forma, para Comte há um método geral para a ciência (observação subordinando a imaginação), mas não um método único para todas as ciências; além disso, a compreensão da realidade lida sempre com uma relação contínua entre o abstrato e o concreto, entre o objetivo e o subjetivo. As conclusões epistemológicas a que Comte chega, segundo ele, só são possíveis com o estudo da Humanidade como um todo, o que implica a fundação da Sociologia, que, para ele, é necessariamente histórica.
Além da realidade, outros princípios caracterizam o Positivismo: o relativismo, o espírito de conjunto (hoje em dia também chamado de "holismo") e a preocupação com o bem público (coletivo e individual). Na verdade, na obra "Apelo aos conservadores", Comte apresenta sete definições para o termo "positivo": real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.



A lei dos três estados



O alicerce fundamental da obra comtiana é, indiscutivelmente, a "Lei dos Três Estados", tendo como precursores nessa idéia seminal os pensadores Condorcet e, antes dele, Turgot.
Segundo o marquês de Condorcet, a humanidade avança de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida, em melhoramentos contínuos e, em princípio, infindáveis - sendo essa marcha o que explicaria a marcha da história.
A partir da percepção do progresso humano, Comte formulou a Lei dos Três Estados. Observando a evolução das concepções intelectuais da humanidade, Comte percebeu que essa evolução passa por três estados teóricos diferentes: o estado 'teológico' ou 'fictício', o estado 'metafísico' ou 'abstrato' e o estado 'científico' ou 'positivo', em que:
  • No primeiro, os fatos observados são explicados pelo sobrenatural, por entidades cuja vontade arbitrária comanda a realidade. Assim, busca-se o absoluto e as causas primeiras e finais ("de onde vim? Para onde vou?"). A fase teológica tem várias subfases: o fetichismo, o politeísmo, o monoteísmo.
  • No segundo, já se passa a pesquisar diretamente a realidade, mas ainda há a presença do sobrenatural, de modo que a metafísica é uma transição entre a teologia e a positividade. O que a caracteriza são as abstrações personificadas, de caráter ainda absoluto: "a Natureza", "o éter", "o Povo", "o Capital".
  • No terceiro, ocorre o apogeu do que os dois anteriores prepararam progressivamente. Neste, os fatos são explicados segundo leis gerais abstratas, de ordem inteiramente positiva, em que se deixa de lado o absoluto (que é inacessível) e busca-se o relativo. A par disso, atividade pacífica e industrial torna-se preponderante, com as diversas nações colaborando entre si.
É importante notar que cada um desses estágios representa fases necessárias da evolução humana, em que a forma de compreender a realidade conjuga-se com a estrutura social de cada sociedade e contribuindo para o desenvolvimento do ser humano e de cada sociedade.
Dessa forma, cada uma dessas fases tem suas abstrações, suas observações e sua imaginação; o que muda é a forma como cada um desses elementos conjuga-se com os demais. Da mesma forma, como cada um dos estágios é uma forma totalizante de compreender o ser humano e a realidade, cada uma delas consiste em uma forma de filosofar, isto é, todas elas engendram filosofias.
Como é possível perceber, há uma profunda discussão ao mesmo tempo sociológica, filosófica e epistemológica subjacente à lei dos três estados - discussão que não é possível resumir no curto espaço deste artigo.


A Religião da Humanidade

Capela Positivista em Porto Alegre
 
 
Os anseios de reforma intelectual e social de Comte desenvolveram-se por meio de suaReligião da Humanidade. Para Comte, "religião" e "teologia" não são termos sinônimos: a religião refere-se ao estado de unidade humana (psicológica, espiritual e social), enquanto a teologia refere-se à crença em entidades sobrenaturais. Considerando o caráter histórico e a necessidade de unidade do ser humano, a Religião da Humanidade incorpora nela a teologia e a metafísica - respeitando, reconhecendo e celebrando o papel histórico desempenhado por esses estágios provisórios, absorvendo o que eles têm de positivo (isto é, de real e de útil).
A Religião da Humanidade encontrou em Pierre Laffitte seu principal dirigente na França após a morte de Comte, especialmente na III República francesa. No Brasil, o Positivismo religioso encontrou grande aceitação no século XIX; embora com menor intensidade no século XX, o Positivismo religioso brasileiro teve grande importância: por exemplo, durante a campanha "O petróleo é nosso!", cujo vice-Presidente era o positivista Alfredo de Moraes Filho, e durante o processo de impeachment do ex-Presidente Fernando Collor de Mello, em que o Centro Positivista do Paraná também solicitou, assim como a Ordem dos Advogados do brasil e Assossiação Brasileira de Imprensa, o afastamento do Presidente da República.
A Igreja Positivita do Brasil, fundada por Miguel Lemos e Teixeira Mendes em 1881, em cujos quadros estiveram Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o Marechal Rondon e o diplomata Paulo Carneiro, continua ativa no Rio de Janeiro.

Obras

  • Opúsculos de Filosofia Social (1816-1828) (republicados em conjunto, em 1854, como apêndice ao volume IV do Sistema de política positiva)
  • Curso de filosofia positiva, em 6 volumes (1830-1842) (em 1848 foi renomeado para Sistema de filosofia positiva)
  • Discurso sobre o espírito positivo (1848)
  • Discurso sobre o conjunto do Positivismo (1851) (Introdução geral ao Sistema de política positiva)
  • Sistema de política positiva, em 4 volumes (1851-1854)
  • Catecismo positivista (1852)
  • Apelo aos conservadores (1855)
  • Síntese subjetiva (1856)
  • Correspondência, em 8 volumes (1816-1857)



A Religião da Humanidade




A Religião da Humanidade é o sistema religioso criado pelo francês Augusto Comte em 1854 como coroamento da carreira filosófica, em que procurou estabelecer as bases de uma completa espiritualidade humana, sem elementos extra-humanos ou sobrenaturais. A Religião da Humanidade também é conhecida como "Positivismo religioso".
Positivismos "religioso" e "filosófico"
À semelhança das demais religiões, a Religião da Humanidade tem dogma, culto e regime, templos e capelas; sacramentos,sacerdotes e assim por diante. Todavia, uma particularidade distingue-a radicalmente: ela é uma religião "positiva" ou "científica", no sentido de que não venera um ser superior sobrenatural. Assim sendo pode-se classificar a Religião da Humanidade como monista e naturalista. Nela não há espaço para o sobrenatural , pois todos os fenômenos tem origem e causa na natureza.

A Religião da Humanidade foi criada por Comte a partir de sua busca por uma espiritualidade plenamente humana, adaptada a uma época em que o ser humano pode viver esclarecido pela ciência, com uma atividade prática totalmente pacífica e baseada no altruísmo.

Entre 1830 e 1842 Comte publicou seu Sistema de Filosofia Positiva, em que repassou os principais resultados científicos de sua época, sistematizando-os e elaborando uma Filosofia da História e uma Filosofia da Ciência, assim, como, principalmente, criou a Sociologia. Após esse esforço, publicou entre 1851 e 1854 o Sistema de Política Positiva, em que se baseou nos principais resultados do Sistema de Filosofia mas deu um passo além, ao lançar as bases da nova espiritualidade a que nos referimos acima.

Devido ao linguajar empregado nessa nova obra - bem menos impessoal - e devido às referências a Clotilde de Vaux (sua esposa subjetiva e inspiradora), muitos pensadores afastaram-se do Positivismo, aceitando apenas sua obra "filosófica" ou "científica". Todavia, o próprio Comte sempre afirmou que os "verdadeiros positivistas são os religiosos", enquanto os outros são "positivistas incompletos". Seguem-se as próprias considerações de Auguste Comte a este respeito:

"O nome religião não apresenta, pela sua etimologia, nenhuma solidariedade necessária com as opiniões quaisquer que possam ser empregadas para atingir o fim que ele designa. Em si mesmo, este vocábulo indica o estado de completa unidade que distingue nossa existência, ao mesmo tempo pessoal e social, quando todas as suas partes, tanto morais como físicas, convergem habitualmente para um destino comum. Assim, este termo seria equivalente à palavra síntese, se esta não estivesse, segundo um uso quase universal, limitado hoje ao domínio só do espírito, ao passo que a outra compreende o conjunto dos atributos humanos. A religião consiste, pois, em regular cada natureza individual e em congregar todas as individualidades; o que constitui apenas dois casos distintos de um problema único. Visto que todo homem difere sucessivamente de si mesmo tanto quanto difere simultaneamente dos outros; de maneira que a fixidez e a comunidade seguem leis idênticas (“regular e congregar exigem necessariamente as mesmas condições fundamentais. A diversidade dos indivíduos não ultrapassa a dos estados sucessivos de cada espírito, de conformidade com o conjunto de suas dependências, exteriores e interiores. Toda doutrina própria para regular plenamente um só entendimento torna-se capaz de congregar gradualmente os outros cérebros, cujo número só pode influenciar na rapidez desse concurso. Este critério natural constituiu sempre a fonte secreta da confiança involuntária dos diversos renovadores filosóficos no ascendente social de todo sistema dignamente sancionado por essa prova pessoal. A fixidez de suas próprias convicções assegurava necessariamente a universalidade final dele”) (SPP, II, p. 10).

“Não podendo semelhante harmonia, individual ou coletiva, realizar-se nunca plenamente em uma existência tão complicada como a nossa, esta definição da religião caracteriza, portanto, o tipo imutável para o qual tende cada vez mais o conjunto dos esforços humanos. Nossa felicidade e nosso mérito consistem sobretudo em nos aproximarmos tanto quanto possível dessa unidade, cujo surto gradual constitui a melhor medida do verdadeiro aperfeiçoamento, pessoal ou social. Quanto mais se desenvolvem os diversos atributos humanos, tanto mais importância adquire o concurso habitual deles; este, porém, se tornaria também mais difícil se essa evolução não tendesse espontaneamente a tornar-nos mais disciplináveis”.

“O apreço que sempre se ligou a esse estado sintético devia concentrar a atenção sobre o modo de o instituir. Foi-se assim levado, tomando o meio pelo fim, a transferir o nome de religião ao sistema qualquer das opiniões correspondentes”.

“Por mais inconciliáveis, porém, que pareçam à primeira vista, essas numerosas crenças, o positivismo as combina essencialmente, referindo cada uma ao seu destino temporário e local”.

“ Não existe, no fundo, senão uma única religião, ao mesmo tempo universal e definitiva, para a qual tenderam cada vez mais as sínteses parciais e provisórias, tanto quanto o comportavam as respectivas situações. A esses diversos esforços empíricos sucede agora o desenvolvimento sistemático da unidade humana, cuja constituição direta e completa tornou-se enfim possível graças ao conjunto de nossas preparações espontâneas”.

“É assim que o positivismo dissipa naturalmente o antagonismo mútuo das diferentes religiões anteriores, formando seu domínio próprio do fundo comum a que todas se reportaram de modo instintivo. A sua doutrina não poderia tornar-se universal, se, apesar de seus princípios antiteológicos, o seu espírito relativo não lhe ministrasse necessariamente afinidades essenciais com cada crença capaz de dirigir passageiramente uma porção qualquer da Humanidade".



Culto


Na Religião da Humanidade se presta culto e adoração à "Trindade Positivista" composta pela "Humanidade" ou "Grande Ser" (entidade coletiva formada pelo conjunto de seres humanos convergentes do passado que contribuíram para o progresso da civilização, do presente e do futuro), pelo "Grande Fetiche" (o planeta Terra com todos os elementos que o compõe: vegetais, animais, água, terra etc.) e pelo "Grande Meio"(o espaço, os astros, o Universo)". Estes três Grandes seres são objetos de culto juntamente com as "leis naturais" que os regem e regulam, compondo assim a "Ordem Universal" que se constitui do conjunto formado pela "Ordem Natural" e pela "Ordem Humana".

O culto positivista muito tem em comum com o culto fetichista, com a diferença que os positivistas sabem que os fetiches não possuem "inteligência", sendo providos apenas de "vontade" e "sentimento" que estão por sua vez regulados e subordinados às "Leis Naturais". O positivistas religiosos acreditam na eternidade e imortalidade subjetiva da alma cultuando os mortos pelo legado que deixaram para a cultura humana: "Os vivos são cada vez mais necessariamente governados pelos mortos".

A Humanidade é definida como o "conjunto de seres humanos convergentes, passados, futuros e presentes" (Catecismo positivista) e é personificada por uma mulher de cerca de 30 anos, com uma criança no colo. Além disso, Comte recomendava que essa mulher tivesse as feições de sua esposa subjetiva e inspiradora Clotilde de Vaux ou o aspecto da Madona Sistina de Rafael.



Dogma


O dogma da Religião da Humanidade baseia-se na ciência, mas não se resume a ela, pois, mais importante que a instituição científica em si, o que importa para o Positivismo é o espírito positivo. Em rápidas palavras, o espírito caracteriza-se por ser "real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático" (Apelo aos conservadores).

O dogma central no qual está baseada a Religião da Humanidade e a filosofia positivista é a famosa "Lei dos 3 Estados" cujo enunciado é: "Toda concepção humana passa por 3 estados: teológico, metafísico e positivo, em uma velocidade proporcional a generalidade dos fenômenos correspondentes", isto é: todas as concepções do espírito humano desenvolvem-se através de três fases distintas: a teológica, a metafísica e a positiva.

No estado teológico a imaginação desempenha papel de primeiro plano. Diante da diversidade da natureza, o homem só consegue explicá-­la mediante a crença na intervenção de seres sobrenaturais. O mundo torna-se compreensível através das idéias de deuses e espíritos. O homem, nesse estágio de desenvolvi­mento, acredita ter posse absoluta do conhecimento.

Apresenta-se dividido em quatro períodos sucessivos: o fetichismo (ou "feiticismo", a astrolatria, o politeísmo e o monoteísmo. No fetichismo, uma vida semelhante à do homem, é atribuída aos seres naturais. A astrolatria consiste na adoração dos astros, ou seja, das "estrelas", da Lua e do Sol. O politeísmo esvazia os seres naturais de suas vidas anímicas e atribui a animação desses seres não a si mesmos, mas a outros seres, invisíveis e habitantes de um mundo sobrenatural chamados "deuses". No monoteísmo o homem reúne todas as divindades em uma só.

O estado metafísico é uma transição da teologia (em particular, do monoteísmo) para a positividade; é uma degradação da teologia que propriamente um estado "autônomo", pois concebe "forças", entidades abstratas para explicar os diferentes grupos de fenômenos, em substituição às divindades teológicas, mantendo-se as pesquisas finais e a busca do absoluto. Fala-se em "forças da natureza", "força vital" etc. Em um período posterior, a mentalidade metafísica reuniria todas essas forças numa só a chamada “Natureza”.

O estado positivo, ao contrário das concepções que caracterizam o estado teológico e metafísico, considera impossível a redução dos fenômenos naturais a um só princípio (Deus, natureza ou outro experiência equivalente). A unidade que o conhecimento pode alcançar somente pode ser, assim, inteiramente subjetiva.

Essa unidade do conhecimento não é apenas individual, mas também coletiva; isso faz da filosofia positiva o funda­mento intelectual da fraternidade entre os homens, possibilitando a vida prática em comum. O conhecimento positivo caracteriza-se pela previsibilidade: “ver para prever” é o lema da ciência positiva. A previsibilidade científica permite o desenvolvi­mento da técnica e, assim, o estado positivo corresponde à indústria, no sentido de exploração da natureza pelo homem.

Tomando como base a sinergia cerebral e a superioridade da síntese altruísta, as sete ciências unem-se irrevogavelmente ocupando-se em estudar, celebrar e servir o Grande Ser promovendo a reconciliação entre o coração e o espírito. Base sistemática da fé, a Ciência adquire assim uma santidade superior àquela verificada no estado teológico.

A religião da Humanidade possui dogmas verdadeiramente universais, fundamentados na escala enciclopédica de 7 graus composta pelas seguintes ciências: matemática, astronomia, física, química, biologia, sociologia e moral.



A Moral Positiva


A moral Positiva consiste basicamente em três máximas:

- "Viver para outrem" (predomínio do altruísmo sobre o egoísmo, que é a base da Religião da Humanidade);

- "Viver às claras" (quando se age corretamente, não há necessidade de segredos ou práticas ocultas);

- "Viver para o Grande Dia". (aludindo a época em que a sociedade humana alcançará seu estado normal).

Essas máximas regulam a vida privada e pública de cada indivíduo em uma sociedade normal. Na sociedade "normal" os indivíduos colaboram entre si, não havendo necessidade de competição, disputas individuais ou coletivas, em qualquer ambiente ou esfera social. O objetivo da moral positiva consiste em promover a evolução da Ordem gerando o Progresso.



Regime


O regime da Religião da Humanidade corresponde a sua parte prática e pode ser sintetizado através da aplicação da moral positiva. A moral positiva está baseada na subordinação do homem individual à sociedade, da sociedade local aos interesses da Pátria e desta à Humanidade.

O conjunto da moral torna-se um prolongamento necessário do dogma positivo quando a hierarquia enciclopédica se estende até a ordem individual: a subordinação normal da personalidade à sociabilidade, desta à vitalidade e desta à materialidade.

Nas palavras do próprio Augusto Comte: "Com efeito, a fim de constituir uma harmonia completa e duradoura, é preciso ligar o interior pelo amor e o religar ao exterior pela fé. Tais são, em geral, as participações necessárias do coração e do espírito nesse estado sintético, individual ou coletivo".

“A unidade supõe, antes de tudo, um sentimento ao qual se possam subordinar os nossos vários pendores. Visto que as nossas ações e os nossos pensamentos sendo sempre dirigidos pelos nossos afetos, a harmonia humana ficaria impossível se estes não fossem coordenados sob um instinto preponderante.”

“Mas esta condição interior da unidade não bastaria se a inteligência não nos fizesse reconhecer, fora de nós, uma potencia superior a que a nossa existência deve sempre se submeter, mesmo quando a modifica. É a fim de melhor sofrermos esse império supremo que a nossa harmonia moral, tanto individual como coletiva, se torna sobretudo indispensável. Reciprocamente, essa preponderância do exterior tende a regular o interior, favorecendo o ascendente do instinto mais conciliável com semelhante necessidade. Assim, as duas condições gerais de religião são naturalmente conexas, sobretudo quando a ordem exterior pode tornar-se o objeto do sentimento interior.



Sacramentos


A Religião da Humanidade apresenta nove sacramentos, todos eles relacionados integrando a vida individual à social:

1) Apresentação: o recém-nascido é admitido na Religião da Humanidade. Neste sacramento os pais e padrinhos comprometem a educar a criança como servidora da Humanidade.

2) Iniciação: é recebido pelos adolescentes e jovens de 15 a 21 anos. O rapaz e a menina são confiados ao Sacerdote da Humanidade, para receberem, gratuitamente do Sacerdote, os ensinamentos teóricos, que por sua vez compreendem:

a) Filosofia Primeira: conjunto das 15 Leis Universais da Fatalidade Suprema ou Destino.

b) Filosofia Segunda: conjunto de todas as leis compreendidas nas sete ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral.

3) Admissão: dos 22 até os 28 anos, os jovens entram em contato com a vida a fim de encontrar sua verdadeira vocação.

4) Destinação (virilidade): dos 29 aos 42 anos. Este sacramento é administrado após a escolha da profissão, em que o Sacerdote o consagra, para que ele exerça a carreira escolhida em nome da Humanidade.

5) Matrimônio: entre os 21 até 28 anos para a mulher e entre 28 até 35 para os homens, como regra geral. A finalidade do matrimônio, segundo a Religião da Humanidade, é o aperfeiçoamento recíproco dos cônjuges e não a procriação. O casamento é eterno e o divórcio é proibido. Os vínculos matrimoniais continuam válidos mesmo após a morte de um dos cônjuges. É a chamada "viuvez eterna".

6) Madureza: desde 43 até 62 anos. Corresponde ao período de plena responsabilidade, no qual os indivíduos devem tratar de cumprir a sua missão, de modo a merecer depois de sua morte a Incorporação na Humanidade.

7) Retiro: dos 63 anos até a morte. Aos 63 anos confere-se ao indivíduo o Sacramento do Retiro, onde este passa então, do trabalho ativo ou passivo tornando-se um conselheiro, auxiliando a sociedade com sua experiência.

8) Transformação: apreciação do conjunto da existência objetiva que se acaba, com o objetivo de registrar as impressões finais daquele que poderá se transformar em uma parcela subjetiva do Grande-Ser. As cerimônias referentes a este Sacramento estendem-se até a inumação (enterro).

9) Incorporação: sete anos depois da morte ou transformação, tem lugar o Sacramento da Incorporação. Este consiste no julgamento da memória do morto. Quando o Morto for considerado Digno de ser Incorporado à Humanidade , seus restos mortais serão conduzidos ao Bosque Sagrado, em sepulturas conjuntas com seus entes queridos. Esse Bosque Sagrado circunda cada Templo da Humanidade.



O Lema Positivista


A Religião da Humanidade possui como lema religioso a máxima: "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim".

O amor deve coordenar o princípio de todas as ações individuais e coletivas. A Ordem consiste na conservação e manutenção de tudo o que é bom, belo e positivo. O progresso é a consequência do desenvolvimento e aperfeiçoamento da Ordem. Assim sendo, do desenvolvimento da Ordem resulta o Progresso individual, moral e social. O lema político "Ordem e Progresso" origina-se do lema religioso e possui como significado "melhorar conservando", isto é, conservar e aperfeiçoar o que é bom e corrigir e eliminar o que é ruim.



Conclusão


O "poder superior”, que nossos antepassados explicavam pela existência de vontades sobrenaturais, o positivismo demonstra como existindo em um ser não-sobrenatural, mas natural e real, proveniente da solidariedade e da continuidade humanas, na forma de um crescente tesouro de conquistas teóricas e práticas que a espécie acumula, a duras penas, e lega de geração a geração. Subjetivamente podemos sentir a presença de todos aqueles a cujos esforços devemos o estagio do presente. E essa presença subjetiva estende-se para o futuro onde nos vemos e nos sentimos num eterno evoluir regido pela ordem natural. Nas Palavras de Auguste Comte:

"O presente vem do passado e projeta-se para o futuro, essas três existências comuns a todos os seres individuais e coletivos formam o Grande Ser subjetivo que constitui a nossa providência e condensa tudo o que há de belo, verdadeiro e bom".

"A existência do Grande Ser assenta necessariamente sobre a subordinação contínua da população objetiva à dupla população subjetiva. Esta fornece, de uma lado a fonte, de outro o fim, da ação que só aquela exerce diretamente. Trabalhamos sempre para nossos descendentes, mas sob o impulso de nossos ancestrais, de onde derivam ao mesmo tempo os elementos e os procedimentos de todas nossas operações. O principal privilégio de nossa natureza consiste em que cada individualidade perpetua-se aí indiretamente pela existência subjetiva, se seu surto objetivo tiver deixado resultados dignos. Estabelece-se assim, desde a própria origem, a continuidade propriamente dita, a qual nos caracteriza mais do que a simples solidariedade, quando nossos sucessores prosseguem nosso desempenho como nós prolongamos o de nossos predecessores" (SPP, p. 34).



Lei dos Três Estados


Lei dos três estados é o conceito fundamental da obra filosófica, científica e política do autor francês Auguste Comte (1798-1857), o fundador do positivismo. Essa idéia é "fundamental" porque, literalmente, lança os fundamentos das elaborações de Comte e permite que se relacionem de maneira harmônica vários âmbitos da existência do ser humano, desde as belas-artes até a política, passando pelas ciências e pela economia. Ela é uma concepção ao mesmo tempo epistemológica, histórica e filosófica (em sentido amplo), tendo permitido a Comte criar a Sociologia, a História das Ciências e também a Psicologia Positiva (por ele chamada de "Moral").

Sugerida ao longo do século XVIII por pensadores como Turgot e Condorcet, a Lei dos Três Estados foi apresentada por A. Comte em 1822 no opúsculo Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade. Embora as idéias subjacentes à "lei dos três estados" tenham permanecido constantes ao longo da carreira comtiana, o fato é que o seu enunciado teve algumas variações menores entre 1822 e 1852 (ano em que A. Comte escreveu o Catecismo positivista e apresentou o enunciado final da lei).

O enunciado da Lei dos Três Estados
Eis o enunciado presente no Catecismo positivista (conforme aparece na quarta edição brasileira da Igreja Positivista do Brasil, de 1934, página 479):

"Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes".

De maneira complementar à Lei dos Três Estados, há a Lei do Classamento das Ciências. De acordo com essa lei complementar, as ciências são as seguintes: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia, Moral (ou Psicologia Positiva).



Explicando as leis


Conjugando as duas leis - a dos Três Estados e a da Classificação das Ciências -, o resultado é o seguinte.

Toda concepção humana - para o que interessa aqui: toda concepção abstrata - passa por três fases sucessivas: teológica, metafísica e positiva; a fase teológica, por sua vez, subdivide-se em fetichista, politeísta (ou politeica) e monoteísta (ou monoteica). Essas fases correspondem a formas de explicar os fenômenos tratados em cada concepção. Na fase teológica, os fenômenos são explicados a partir de vontades supra-humanas e sobrenaturais, que manipulam à vontade a realidade. Na fase metafísica, os fenômenos são explicados com recurso a abstrações teóricas que assumem vontades personificadas. Na fase positiva, por fim, os fenômenos são explicados por meio de leis naturais, que estabelecem relações de sucessão e semelhança. Além disso, a teologia e a metafísica são absolutas em termos filosóficos e buscam as causas primeiras e finais ("de onde viemos?", "para onde vamos?" etc.), ao passo que a positividade é relativista e humanista, deixando de lado os "porquês" absolutos.

É importante notar que a "positividade" não é a mesma coisa que a simples "ciência" ou o "cientificismo". A positividade considera a totalidade da natureza humana (que é tripla: sentimentos, inteligência e atividade) e procura aplicar em sua integralidade o espírito positivo.

A velocidade com que as concepções humanas passam por essas fases de acordo com dois critérios: generalidade descrescente e complexidade crescente.

Em outras palavras, quanto mais geral for o fenômeno em questão, mais rapidamente ele tornar-se-á positivo; quanto mais complexo (ou seja, quanto maior a quantidade de variáveis intervenientes), mais demorada será essa passagem.

A Lei da Classificação das Ciências corresponde, portanto, à sucessão histórica e teórica dos tipos de fenômenos que passaram pelas três fases (teológica, metafísica e positiva). Esses tipos de fenômenos são agrupados nas sete ciências fundamentais, necessariamente de caráter abstrato, indicadas acima: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral (ou Psicologia Positiva).



Não há apenas uma Lei dos Três Estados


Diferentemente do que se afirma correntemente, não há apenas uma única Lei dos Três Estados; na verdade, elas são três. Por que essa quantidade? Porque, para Comte, o ser humano tem uma natureza tripla: ele é constituído por 1) sentimentos e instintos; 2) por idéias e crenças e 3) por ações práticas.

A "Leis dos Três Estados" mais conhecida - e que, com justiça, como dito acima, é considerada a fundamental - é a relativa às idéias. As outras duas são as seguintes (Catecismo positivista, 4ª ed., Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, p. 479):

atividade prática: "A atividade é primeiro conquistadora, em seguida defensiva e enfim industrial"
sentimentos e instintos: "A sociabilidade é primeiro doméstica, em seguida cívica e enfim universal, segundo a natureza peculiar a cada um dos três instintos simpáticos [veneração, apego e bondade]".
Elas querem dizer o seguinte.

Na lei da atividade prática, o ser humano começa sua história fazendo a guerra expansionista, isto é, para conquistar territórios; em seguida, ele faz guerra defensiva, ou seja, faz guerras para defender-se de ataques externos; por fim, a sua atividade principal deixa de ser guerreira e torna-se pacífica, destinada à satisfação das várias necessidades humanas (materiais, intelectuais, afetivas).

Na lei dos sentimentos e dos instintos, o ser humano começa sua história preocupando-se com suas vinculações familiares (clãs, tribos), em que a base da associação é o respeito aos mais velhos (ou aos mais fortes). Em seguida, as associações humanas ampliam-se e sua base passa a ser cívica, nas cidades ou nas nações; por fim, o ser humano vincula-se a toda a humanidade, por meio da mais pura bondade (isto é, a preocupação com os outros, com os mais fracos ou com quem vem depois de nós).

A realização dessas três leis dos Três Estados constituirá, na visão de Comte, a realização do seu Positivismo, isto é, da Religião da Humanidade.

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