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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Escultura do gótico V

Métodos de trabalho
Durante o Gótico nenhuma das várias técnicas de escultura conheceu inovações essenciais, ainda que em muitas delas se verificasse um grande e progressivo refinamento, mas é uma característica desse período a
concentração do trabalho na pedra e na madeira, já que grandes peças em bronze,
pelo seu custo e dificuldade técnica, se tornavam proibitivas. A técnica
da fundição indireta em cera perdida, que resulta em esculturas ocas, barateando enormemente a
produção e possibilitando a criação de obras em grandes dimensões, só
foi redescoberta em meados do século XV.
Assim, os aspectos práticos mais importantes a serem considerados na
história da escultura gótica são o seu caráter coletivo e o papel das guildas e
oficinas de produção. Quando surgiu o Gótico no século XII o principal
gênero de escultura era o fachadista, que estava em estreita dependência
da arquitetura. Para a construção de uma grande catedral, que podia
levar séculos a ser concluída - muitas jamais o foram -, se formava uma
espécie de empresa, a opus, com uma hierarquia organizada sob a
direção geral da Igreja e um exército de artesãos sob o comando de um magister
operis
, o mestre de obras, que estava encarregado de administrar o
fornecimento dos materiais e a equipe, e de um magister lapidum,
que equivalia à função de arquiteto-chefe, e suas atividades podem ser
comparadas às do produtor e do diretor de um filme. Os
operários e artesãos não tinham qualquer papel decisivo importante, sua
subordinação aos mestres era virtualmente completa, e estes por sua vez
trabalhavam diretamente sob a orientação eclesiástica. Ainda que sejam
conhecidos os nomes de vários arquitetos góticos, a personalidade
artística independente, o artesão ascendido ao patamar de artista como
hoje concebemos o termo, só apareceu no século XIV, quando a urbanização
estava avançada o bastante para atrair os melhores criadores para
estabelecerem oficinas privadas nas cidades de maior importância.
Destarte, até meados do século XIV a praticamente toda escultura gótica
foi anônima e produto de várias mãos. Mas mesmo quando começaram a se
multiplicar tais oficinas privadas, a regra foi que o mestre empregasse
uma série de auxiliares que colaboravam na execução das peças, um
sistema que reproduzia em escala menor as grandes empresas das
catedrais, e se agora a personalidade criadora do mestre se fazia mais
nítida, podendo controlar melhor os resultados em encomendas de menor
vulto, ainda o produto final era na maior parte das vezes coletivo. Por
outro lado, a existência de cada vez maior número de artistas autônomos
exigiu sua organização em associações de classe, as guildas, que
exerciam um poder considerável na distribuição de contratos, nos métodos
de ensino aos aprendizes e por vezes até mesmo na definição de
parâmetros estéticos. Ainda que neste último tópico as prescrições das
guildas tivessem usualmente bem menor influência e o mestre individual
preservasse considerável liberdade de escolha e ação, sendo as obras
feitas sempre sob encomenda - não havia produção espontânea - o gosto
dos patronos era determinante.



Declínio, revivalismo e apreciação moderna

Com a intensa revalorização do classicismo durante a Renascença a escultura gótica caiu no esquecimento, e assim permaneceu até meados do século XVIII, quando surgiu um novo interesse em assuntos medievais em
geral. Eruditos ingleses, alemães e franceses tiveram uma participação
importante nessa redescoberta, como Walpole, Goethe, Chateaubriand
mas esse interesse, estando ainda restrito às elites intelectuais, não
evitou que incontáveis outras relíquias de arte e monumentos góticos
perecessem na Revolução Francesa, vandalizados pelo
povo que havia sido, para isso, incentivado por decretos do governo
revolucionário, como o emitido pela Comuna de Paris ordenando a remoção e decapitação de todas as
estátuas de reis da fachada da Catedral de Notre-Dame, por serem um
símbolo da monarquia deposta.



Fachada neogótica da Catedral de Santa Maria del Fiore, Florença,
Itália, com decoração estatuária

Os primeiros estudos a serem feitos sobre o Gótico se concentraram na arquitetura, dando pouca atenção à escultura, que então era considerada meramente um adendo ornamental dos edifícios, e tinha de concorrer com o
imenso prestígio que estava desfrutando a escultura clássica
greco-romana. Lepsius foi o primeiro, em 1822, a realizar um
estudo detalhado das esculturas da Catedral de Naumburg, mas ele mesmo
foi contaminado pelo classicismo e analisou a produção gótica
comparativamente, com prejuízo para esta. De qualquer forma ele chamou a
atenção para o tema e o valorizou como documento histórico e cultural
importante. Na sequência, mais estudos começaram a aparecer, com menções
mais frequentes à escultura, mas ainda dentro de análises gerais da
história medieval. A historiografia começava a se consolidar como
ciência moderna, passando a fazer uso de uma metodologia baseada em
documentação e em abordagens mais objetivas, e um marco nesse processo
foi o influente estudo Handbuch der Kunstgeschichte (1842), de
Franz Kluger, onde pela primeira vez se dedicou seções inteiras à
escultura, ainda que ele reconhecesse que o terreno estava todo por
desbravar. Outra contribuição importante foi dada por Carl Schnaase em
sua Geschichte der bildenden Künste (1842-1864), com cinco
volumes dedicados à Idade Média e se preocupando em estudar os
monumentos dentro de um contexto social, intelectual e histórico. A
importância maior desse estudo foi questionar a tendência geral de se
analisar a produção artística medieval a partir de critérios empregados
para o julgamento da arte clássica. Ao mesmo tempo o
desenvolvimento da arqueologia cristã veio a definir o Gótico como o
estilo por excelência do Cristianismo, e diversas revistas
especializadas apareceram a partir de meados do século XIX com artigos
tratando de obras individuais ou grupos de escultura gótica, mas
tipicamente eles tendiam a divorciar as obras de seu contexto e
abordavam mais aspectos iconográficos e interpretações teológicas, sem
uma visão sintética.
A esta altura o interesse pela Idade Média em geral e pelo Gótico em particular haviam crescido tanto que se formou uma verdadeira onda revivalista neogótica, que repercutiu principalmente na
arquitetura, literatura e na pintura,
mas com significativa expressão também na escultura para criação de
imagens devocionais e decoração da infinidade de novos templos que se
ergueram nessa estética - alguns estudos sugerem que durante o
Neogótico, que perdurou até meados do século XX e se espalhou por todo o
Ocidente, foram erguidos mais edifícios "góticos" do que durante todo o
período de florescimento do estilo original. Entretanto o Neogótico se
revelou eclético, incorporando elementos das escolas neoclássica e românica
e de várias fases distintas do Gótico histórico em uma única obra, e
assim, mais do que uma ressurreição arqueológica, adquiriu a força de um
estilo novo e autônomo, e também contribui para que se formassem
coleções de arte gótica e se iniciassem muitos projetos de restauro de
monumentos antigos, embora nem sempre respeitando a estrita
autenticidade histórica.
Um tratamento mais profundo e científico da escultura gótica só veio a acontecer em fins do século XIX, a partir do trabalho de Wilhelm Lübcke Geschichte der Plastik von den ältesten Zeiten bis auf die Gegenwart
(1863-1871). Nele Lübcke construiu pela primeira vez um panorama
"total" da história da escultura desde as civilizações antigas do Oriente Próximo até os tempos modernos, acrescido de muitas
ilustrações, e reconheceu que a escultura medieval estava sendo
indevidamente negligenciada. Trabalhos de Wilhelm Bode, Franz von Reber e
especialmente Wilhelm Vöge finalmente estabeleceram nessa mesma época a
escultura gótica como um campo definido de estudos, enquanto que
Giovanni Morelli, Émile Mâle, Louis Courajod e outros se dedicavam a
questões de regionalismos, iconografia, períodos específicos, genealogia
e interpretação do estilo. O novo emprego da fotografia
como meio de documentação científica também deu fundamental auxílio aos
acadêmicos e divulgou os monumentos góticos entre o grande público.
Outro fator que concorreu para uma reavaliação da escultura gótica foi o
fato de desde fins do século XVIII diversas ordens religiosas foram
dissolvidas em vários países, e foram desmantelados ou reformados muitos
edifícios medievais, cuja estatuária decorativa acabou por ingressar em
coleções museais. Com isso, desvinculada de sua função, pôde ser
apreciada como "obra de arte", independente do culto e do seu aspecto místico. No século XX deram contribuições
importantes - e muitas vezes polêmicas - sobre vários aspectos do
estilo, Wilhelm Worringer, cujas idéias sobre o
Gótico tiveram impacto sobre o Expressionismo e outras vanguardas modernistas
e também sobre o nacionalismo germânico pré-nazista; Hans Seldmayer e Erwin Panofsky, definindo a catedral gótica como uma "obra
de arte total" (Gesamtkunstwerk); e também Johan Huizinga e Arnold Hauser, correlacionado arte e sociedade, mas a despeito do grande
progresso recente nos estudos medievalistas e da considerável
bibliografia já publicada sobre a arquitetura das catedrais, a escultura
gótica como entidade independente ainda é um tema relativamente pouco
abordado pelos pesquisadores modernos.

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